MANIFESTO POR DECISÕES DESCENTRALIZADAS

- Contributo para a ausência

de uma estratégia económica nacional *

 

1.   Na passada semana, o País foi sacudido do torpor inconsciente

em que vivia pelo Manifesto Centros de Decisão - Contributos para um

conceito de estratégia nacional.

 

Subscrito por alguns dos mais destacados membros das elites

intelectuais e empresariais do País, este documento, aparentemente

propugna o seguinte:

 

-    Uma aliança entre as elites empresariais e intelectuais e o

Governo com o objectivo de garantir a fixação em Portugal

de 'centros de decisão' portugueses.

 

Caso tal não aconteça, afirmam os subscritores do documento, estará

em causa, não só a viabilidade das empresas portuguesas, como

especialmente a viabilidade de Portugal enquanto sociedade política

autónoma.

 

Apesar da profissão de fé no mercado e da recusa do proteccionismo

que consta do referido Manifesto, e apesar da ausência de propostas

concretas, os comentadores têm afirmado - sem terem sido

desmentidos - que o que está fundamentalmente em causa é a

utilização de 'formas instrumentais que permitam transformar [a base

de capital nacional] em motor do controlo e da gestão das empresas'.

Ou seja, o Estado deverá fomentar a apropriação e o controlo de

empresas nacionais por parte de accionistas portugueses,

dificultando, simultaneamente, a entrada de capitais estrangeiros.

 

2.   Considera-se que o documento em causa é pouco claro,

contraditório, vago e redundante.   Por outro lado, o argumento

apresentado é falso.   Em conclusão, o país necessita, não

de 'centros de decisão', mas sim de decisões descentralizadas.



Ambiguidades, contradições, redundâncias, hipocrisias e velhas

alianças

 

3.   As ambiguidades, contradições, o carácter redundante do

Manifesto e a falta de novidade da solução (?) proposta são

evidentes.

 

4.   Em primeiro lugar, toda a opinião publicada aponta como causas

directas deste Manifesto a crescente presença de grupos e empresas

espanholas nos mercados portugueses, o déficit da balança de

transações entre Portugal e Espanha, os obstáculos colocados a

empresas portuguesas pelo Governo Espanhol, em particular nos

mercados da electricidade e da pasta do papel, e as reduzidas

facilidades concedidas pelo Estado Português às empresas portuguesas

no âmbito dos processo de privatização.

 

É, pois, a crescente concorrência que as empresas espanholas impõem

às empresas portuguesas que explicam o aparecimento deste

documento.

 

No entanto, os subscritores escondem-se por detrás de referências

oblíquas ao problema - 'dispondo de um único vizinho com

contiguidade territorial', [Portugal] cedo procurou no Atlânticos

caminhos do Mundo'; 'os [países] mais poderosos apresentam-se neste

confronto de uma forma ostensivamente defensora dos seus interesses

nacionais'; 'o controlo estrangeiro das empresas nacionais' -,

preferindo justificar a sua intervenção como uma manifestação de

superioridade intelectual - os subscritores pretendem

desfazer 'distorções analíticas' e contrariar 'excessos de zelo'-,

com a 'solidariedade para com os mais fracos' e, sobretudo, com a

defesa da 'autonomia', 'viabilidade política' e independência de

Portugal.

 

5.  Em segundo lugar, o documento é contraditório:

 

-  Por um lado, exaltam-se os objectivos e os feitos da construção

europeia, por outro credibilizam-se os sofisticados argumentos

económicos normalmente utilizados pelos adversários da integração

económica, da liberalização do comércio e da globalização.

 

(A propósito, algum dos subscritores quererá indicar qual o número

de experiências reais que comprovam que a liberalização se pode

traduzir em perda de riqueza para os residentes? É que alguns casos

particulares de análises estáticas e em equilíbrio parcial serão por

vezes e apenas exemplos académicos.)

 

- Condena-se a xenofobia, mas todos os comentadores entendem as

motivações anti-espanholas dos subscritores do documento.

 

- Defendem-se as regras de mercado, as escolhas do consumidor e

condena-se o proteccionismo, mas solicita-se a intervenção do Estado

para favorecer os investidores nacionais em relação aos investidores

estrangeiros.

 

6.   Este Manifesto é também redundante; as ideias apresentadas

por estes senhores encontram-se já reflectidas, por exemplo, no

programa do actual Governo (cf. 2.1. Consolidação e Reforço da

competitividade do Tecido Empresarial).

 

O valioso tempo dos subscritores deste Manifesto teria sido melhor

utilizado se tivesse sido aplicado na redacção de um manifesto em

defesa da liberalização do mercado de trabalho, ou em defesa da

reforma da Segurança Social, ou em defesa da reforma e redução da

Administração Pública ou em defesa do investimento nas funções

próprias e legítimas do Estado - defesa, segurança pública e

administração da justiça - e do consequente desinvestimento noutras

áreas, etc...

 

Em alternativa, poderiam os subscritores ter redigido um manifesto

contra o sistema estalinista de educação, ou contra a colonização

dos media pelo bloco de extrema esquerda, ou contra o aumento dos

impostos, ou contra o aumento da despesa pública, ou a contra a

existência de canais públicos de televisão, etc...

 

Mas pelos vistos, estas são questões menores; mais importante é a

profusão de bancos, grandes armazéns e produtos espanhóis a quem

consumidores e investidores portugueses, livre e voluntariamente,

decidem atribuir a sua preferência.

 

7.  Mas é a solução proposta pelos subscritores do documento que

menos valor acrescenta.

 

Desde logo, a 'aliança' entre elites intelectuais, empresariais e

governamentais sempre existiu.

 

A dança entre as cátedras das universidades, os cadeirões dos

gabinetes do Terreiro do Paço e as cadeiras dos conselhos de

administração, é um facto da vida portuguesa que remonta, pelo

menos, ao séc. XIX. (alíás, alguns dos subscritores do Manifesto são

mesmo participantes activos nesta dança de cadeiras.)

 

Durante muito tempo, foi objectivo explícito desta "sagrada

aliança" defender e proteger o capital nacional.

 

Mas não foi esta solução que garantiu a permanência em Portugal de

centros de decisão.

 

Aliás, não deixa de surpreender que os subscritores do documento

depois de, no contexto das suas actividades públicas e/ou privadas,

terem contribuído para a deslocalização dos centros de decisão para

fora do território nacional (cf. Expresso de 1 de Novembro de 2002),

venham agora solicitar a intervenção do governo para evitar essa

mesma deslocalização em nome da independência nacional...

 

Tal actuação não deixa de criar a suspeita de que alguns dos

subscritores, depois de durante anos terem defendido a liberalização

da economia e a concorrência, venham agora defender a intervenção do

Estado para proteger da concorrência os seus

empregos 'sustentáveis', 'bem remunerados', 'com maior conteúdo

funcional e latitude de acção', quer nas 'empresas de sucesso' que

durante anos beneficiaram de um clima concorrencial tão ameno como o

clima português, quer nos 'centros de inteligência' (?) nacionais ou

mesmo na administração pública.



Erros, distorções e a lei de talião

 

8.   Mas se o documento não é um exemplo de lógica, coerência ou

relevância, pior é o facto de  toda a análise e soluções (?)

apresentadas partirem de um erro.

 

Convirá, primeiro, ressalvar que os subscritores do documento não

colocam em causa que a actual política de livre circulação de

capitais no território nacional se traduza em aumento da riqueza

nacional (apesar dos sofisticados argumentos utilizados poderem ser

utilizados para esse fim - outra contradição).

 

Os autores referem-se antes a um 'empobrecimento qualitativo'. A

lógica do raciocínio é a seguinte:

 

-    O governo não favorece, antes dificulta, a acumulação e

agregação do capital nacional, já muito prejudicado por políticas

passadas; tal facto, favorece o controlo estrangeiro das empresas

nacionais por investidores estrangeiros; como os 'centros de decisão

continuam (...) a ser marcados pela sua origem histórica', os

centros de decisão são transferidos para o estrangeiro (i.e.

Espanha); como resultado, diminui o número dos 'empregos mais

qualificados , com maior conteúdo funcional e com maior latitude de

acção ( ...) enfraquecendo os próprios centros de inteligência [?]

do país, nomeadamente universidades, centros de investigação e

gabinetes de consultoria'; a perda destes empregos provoca o

tal 'enfraquecimento qualitativo', colocando em causa o 'peso

político' (?) e o 'grau de autonomia' do país.

 

A outra face da moeda do argumento utilizado é a seguinte:

 

-         A independência nacional e a riqueza 'qualitativa' apenas

serão conseguidas se o Estado fomentar o controlo nacional das

empresas. Tal facto garantiria a localização em Portugal de 'centros

de decisão', e o ciclo vicioso acima descrito seria revertido.

 

Todo este raciocínio é falso.

 

9.   Em primeiro lugar, convirá recordar que este não é um argumento

novo.

 

Trata-se do argumento que justificou as políticas comerciais e

industriais activas do Japão e dos 'tigres asiáticos', e que foi

utilizado durante os anos 80 e inícios de 90 pelos proteccionistas e

nacionalistas americanos contra a 'compra da América' pelas empresas

japonesas.

 

Ora, se desde sempre a relação empírica e teórica entre a

prosperidade dos países asiáticos e as suas políticas industriais e

comerciais nunca foi mais do que ambígua, as sucessivas crises

asiáticas e a estagnação japonesa demonstram os efeitos nefastos

deste tipo de políticas e colocam a nu os efeitos perversos da

aliança entre elites empresariais e governos.

 

Por outro lado, no mesmo período em que era suposto que os EUA

estivessem a perder a sua autonomia devido à invasão económica

japonesa, este país derrotou o seu inimigo de décadas e transformou-

se na única superpotência mundial !

 

10.  De referir, igualmente, que, se de facto, parece ser verdade

que a origem histórica determina a localização do 'centro de

decisão', não será menos verdade que as decisões empresariais são

tomadas com base na sua racionalidade económica e financeira.

 

O proteccionismo nacional não é um valor que os accionistas

pretendam ver sobreposto à rentabilidade. Se uma empresa espanhola

deslocaliza um centro de decisão para Espanha, sendo económica e

financeiramente mais vantajoso localizá-lo em Portugal, a empresa

arrisca-se a ser ultrapassada pelos seus concorrentes e, no limite,

a ser adquirida por esses mesmos concorrentes.

 

Aliás, o exemplo das empresas portuguesas é uma excelente ilustração

deste facto: quantos dos subscritores deslocalizaram a sede das suas

empresas para outros países devido a questões fiscais?

 

11.  Também é verdade, e ao contrário da estratégia de vitimização

que transparece do documento, que as condições de partida das

empresas portuguesas não serão desesperadas.

 

Se de facto, somos periféricos, não o seremos mais que a Irlanda ou

a Nova Zelândia; se de facto carregamos uma pesada herança de 40

anos de ditadura (também económica), 6 anos de guterrismo e de um 1

dia de comunismo (o 11 de Março), esta não será mais pesada do que a

herança da República Checa ou da Polónia.

 

12.  Por outro lado, a suposição de que os empregos associados

aos 'centros de inteligência' contribuem de alguma forma para o

enriquecimento 'qualitativo' do país, é apenas um reflexo do

complexo do 'Sr. Dr.' que afecta à alguns séculos a intelligentsia

portuguesa.

 

Será que esses 'centros de inteligência' contribuíram de forma

marcante para o enriquecimento qualitativo ou quantitativo do país?

E o actual contributo negativo desses centros será resultado da

ausência de 'centros de decisão' nacionais ou antes da existência de

um único 'centro de decisão' nacional situado na Av. 5 de Outubro em

Lisboa?

 

A posição do Manifesto é, eventualmente, uma manifestação da falácia

do valor: ao contrário do que se pensa, o valor não se encontra nas

coisas (neste caso na função/profissão), mas sim nas pessoas. São

estas que através das suas decisões e escolhas revelam o valor das

coisas.

 

Se algum dos leitores tiver dúvidas sobre esta questão, dirija-se ao

estaleiro de obra mais próximo e questione um dos Ucranianos

doutorados em física atómica que lá se encontram. Aliás, não será

necessário deslocar-se à obra; o simples facto desse operário

doutorado se encontrar em Portugal  e não num 'centro de

inteligência' na Ucrânia revela a preferência do Sr. Doutor.

 

13.  Mas talvez mais perverso é partir do princípio que o sucesso

das empresas estrangeiras (i.e. espanholas) e o aparente fracasso

das empresas portuguesas,  se deve ao bloqueio espanhol aos

investimentos estratégicos portugueses e ao 'excesso de zelo' não

interventor do governo português em relação aos investimentos

espanhóis.

 

Se as empresas e a economia espanhola se encontram em posição mais

vantajosa que a portuguesa, o contributo da política governamental

resulta, fundamentalmente, da disciplina orçamental a que conseguiu

submeter o país, do menor esforço fiscal exigido à economia e da

estabilidade política conseguida pelos Governos do PP. A posição

proteccionista do Estado espanhol será neste contexto um factor

menor e eventualmente negativo. Mas se existir alguma evidência

empírica que contrarie o que aqui se acabou de afirmar, caberá aos

subscritores do Manifesto apresentá-la.

 

Convirá, igualmente, referir que de maneira alguma as intervenções

do Governo Espanhol neste âmbito têm contribuído para a manutenção

da independência espanhola. Mais facilmente se assistirá à

desintegração da Espanha, do que à desintegração de Portugal

(enquanto comunidade política autónoma).

 

14.  Por último, a solução (?) proposta é contraprodutiva; os

subscritores pretendem seguir a lei de Talião - olho por olho, dente

por dente-; se o Governo espanhol intervém em auxílio das empresas

espanholas, o Governo português deverá seguir o mesmo caminho em

relação às empresas portuguesas.

 

Ora, esta atitude terá como resultado uma espiral de retaliação

cujas consequências serão necessariamente prejudiciais para a

economia mais pequena. Já para não referir que a generalização desta

política colocaria em causa o próprio processo de construção

europeia.

 

Nestas circunstâncias, e partindo do princípio que o Governo

espanhol coloca barreiras aos investimentos portugueses em Espanha e

logo à livre circulação de capitais, deverão as empresas portuguesas

e o Governo solicitar, de imediato, a intervenção das instituições

comunitárias. Se estas dedicassem o seu tempo a cumprir as suas

obrigações legítimas - garantir o cumprimento das regras do mercado

único - em vez de pretenderem transformar-se num Governo europeu,

melhor estaríamos.



Uma estratégia económica para Portugal: a ausência de Estratégia

 

15.  Se se pretende, de facto, garantir a independência nacional,

obter-se-iam melhores resultados se se defendesse  a concentração do

Estado nas suas funções legítimas: defesa nacional, segurança

pública  e administração da justiça.

 

Deixe-se o resto às decisões livres, voluntárias e DESCENTRALIZADAS

de consumidores, investidores, trabalhadores e aforradores. Como

dizia Adam Smith:

 

"Pouco mais é necessário para levar um Estado do mais baixo

barbarismo até ao mais elevado grau de opulência que paz, impostos

leves e uma razoável administração da justiça. Tudo o resto

resultará do curso natural das coisas."

 

Um país periférico mas seguro, com uma justiça eficaz e célere,

impostos leves, uma Administração eficiente e desburocratizada, boas

infra-estruturas e um clima ameno, não só seria um país Livre e

próspero, como até constituiria um foco de atracção para empresas e

centros de decisão nesta época em que se declarou a morte da

distância.

 

16.  Em vez de em cada vez que a conjuntura nacional e internacional

piora formarem-se delegações que se dirigem de mão estendida ao

primeiro-ministro da ocasião, melhor seria que as elites

empresariais e intelectuais se dedicassem a fazer aquilo em que

deviam ser  especialistas: produzir bens, serviços, ideias,

contribuindo desta forma para criar o espirito de independência

pessoal e de auto-governo que é o verdadeiro baluarte da Liberdade e

da independência nacionais.

 

Parafraseando Fernando Pessoa no final da Mensagem, Valete fratres

[1].

 

* assinam Luís Aguiar Santos, António Marques Mendes, João Aires

Noronha, Carlos Novais Gonçalves e Carlos Abreu Amorim, membros da

Direcção da CAUSA LIBERAL - Associação para o estudo, debate e

divulgação do Liberalismo Clássico


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[1] Coragem irmãos.

 

Causa Liberal