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Catolicismo,
Protestantismo e Liberalismo* Debate no blog da Causa Liberal entre
André Azevedo Alves (AAA) e Luís Aguiar Santos (LAS) AAA: A Constituição inconstitucionalArtigo
do Professor João César das Neves sobre a inconstitucionalidade da
Constituição da República Portuguesa: "Também
a «obrigação de o Estado promover o aumento do bem-estar social e económico e
a qualidade de vida das pessoas» (art. 81.º a) choca com artigos como o
Serviço Nacional de Saúde (64.º n.º 2 a), a política agrícola (93.º-98.º), a
exigência do «planeamento democrático do desenvolvimento económico e social»
(81.º i, 90.º e 91.º), etc., assim feridos de inconstitucionalidade LAS: Provocação a JCNArtiguinho
confuso, esse... (porque as contradições, verdadeiras, são insinuadas, mas não
explicadas, o que para o leitor comum deve resultar um pouco estranho). Mas o
Prof., já que está interessado em explorar textos importantes e com
contradições entre a liberdade individual e de consciência e as exigências da
"justiça social" e do planeamento, tem ampla matéria de análise...
nas encíclicas papais! AAA: Provocação a LASCaso o Professor João César das Neves decida seguir a sugestão
de LAS, acrescento que uma análise completa de textos importantes com
contradições entre a liberdade e o intervencionismo anti-capitalista não pode
ficar completa sem uma reflexão sobre os escritos de Lutero. Senão vejamos as
suas ideias sobre a usura e a sua indignação face à tolerância católica desta
"hedionda" prática: "The
heathen were able, by the light of reason, to conclude that a usurer is a
double-dyed thief and murderer. We Christians, however, hold them in such
honour, that we fairly worship them for the sake of their money.... Whoever
eats up, robs, and steals the nourishment of another, that man commits as
great a murder (so far as in him lies) as he who starves a man or utterly
undoes him. Such does a usurer, and sits the while safe on his stool, when he
ought rather to be hanging on the gallows, and be eaten by as many ravens as
he has stolen guilders, if only there were so much flesh on him, that so many
ravens could stick their beaks in and share it. Meanwhile, we hang the small
thieves.... Little thieves are put in the stocks, great thieves go flaunting
in gold and silk.... Therefore is there, on this earth, no greater enemy of
man (after the devil) than a gripe-money, and usurer, for he wants to be God
over all men."
LAS: Lutero, papas e liberalismo económicoAcho
comovente que se cite Lutero a partir de "O Capital", mas espero
que sem a intenção de sugerir aquele tipo de "genealogias do erro"
tão típicas de certa apologética católica...! De qualquer forma, não valeria
a pena o esforço: Lutero apenas se pronunciou contra a usura (mostrando aliás
ter apreendido bem uma das ideias dominantes entre a cultura monástica
católica em que se formara) e não contra o "liberalismo" - coisa
que dos bispos de Roma a que eu me referia não se pode dizer. É que quando
Lutero escreveu, no princípio do século XVI, sobre assuntos
"profanos" como a usura, a ciência económica estava longe sequer da
definição quanto mais da elaboração que já tinha quando os papas dos séculos
XIX e XX começaram a redigir as encíclicas que deram corpo à chamada Doutrina
Social da Igreja (Católica). Ou seja, onde Lutero reagira por
"instinto", os papas reagiram elaborada e deliberadamente contra um
corpo já definido de ideias. Pelo que não percebo a provocação de AAA,
respondendo à minha provocação sobre a DSI com referências a Lutero e à usura
- quando muito, poderia AAA citar o "social gospel" que atravessou
boa parte das denominações protestantes no século XX (sobretudo as mais
"instaladas"), mas eu gostaria de ver, do lado católico, críticas
tão consistentes às falácias do socialismo cristão (do ponto de vista
evangélico) como aquela que se encontra nos escritos do Rev. Edmund A. Opitz
(veja-se o seu livro "The Libertarian Theology of Freedom") - ou à
presença do Estado na educação como visceralmente incompatível com a liberdade
de consciência dos cristãos, que se lê nos textos do Rev. J. Gresham Machen. AAA: Protestantes e CatólicosLAS
escreveu uma excelente resposta
à minha provocação
sobre o anti-capitalismo de Lutero. LAS: Re: Protestantes e CatólicosOs
escolásticos que mostraram uma "abertura crescente ao juro" eram,
de facto, do séc. XVI (tardio), não do séc. XV, e, portanto dificilmente
anteriores ou sequer contemporâneos do início da Reforma (era o caso de Luis
de Molina) - mas há que dizer que essa parte muito pequena da Escolástica não
fez escola no catolicismo e manteve-se praticamente desconhecida durante
séculos, pelo que os méritos da Igreja Católica no assunto são, no mínimo,
altamente duvidosos... (Já numa troca de impressões mantida há um ano sobre
este assunto, eu defendi o meu ponto de vista de que o que ajudou estes
poucos escolásticos sobre os problemas do juro e do valor, tal como depois
Menger, foi a lógica aristotélica e não qualquer ligação ao catolicismo)
Depois, bem ou mal - e sem termos de aderir ao esquematismo da tese weberiana
-, o facto é que foi em países de predominância protestante que o mercado
financeiro floresceu nos sécs. XVII e XVIII (Países Baixos e Grã-Bretanha), o
que parece querer dizer que o protestantismo, podendo não ter sido a causa,
também não foi uma barreira...! Finalmente, gostei do reconhecimento que AAA
fez de que as encíclicas podem errar: mas a doutrina católica, que proclama a
infalibilidade do Papa, dificilmente está de acordo com essa constatação tão
"protestante"! Lutero não é importante para os protestantes como
profeta (que não foi) ou anunciador da "nova interpretação
verdadeira" da Bíblia: ele é importante por ter negado que alguém, sob
Deus, possa reclamar uma tal autoridade de magistério. E é por isso que AAA,
ao concluir o que concluiu, é muito mais "luterano" do que
imagina... AAA: Protestantes e Católicos (2)LAS respondeu
ao meu anterior post
sobre o protestantismo no tom elegante e conhecedor que o caracteriza. LAS: Ainda Protestantes e CatólicosNoto
que AAA sabe fazer o elogio do "adversário" que as boas regras da
retórica recomendam... Entrando na matéria, não sei se tem muito sentido
considerarmos autores da Idade Média (portanto, anteriores à Reforma) como
parte de uma "contenda" entre católicos e protestantes - ou melhor,
como podendo ser reclamados só por uma das partes. Os protestantes separaram-se
da comunhão com Roma, mas não enjeitam como sua a história cristã anterior à
Reforma - com as suas glórias e misérias... Agosto de 2003 André Azevedo Alves e Luís Aguiar Santos *originalmente publicado no blog da Causa Liberal entre 28 de Julho e 1 de Agosto de 2003 |