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Economic Freedom of the World 2004*
Por Miguel Noronha
Já está disponível a edição de
2004 de "Economic Freedom of the
World" [EFW] editado, entre outros, pelo Cato Institute.
Este índice é obtido utilizando 38 váriaveis e procura medir o grau de
liberdade económica [LE] em cinco áreas: 1) Dimensão do Governo; (2)
Estrutura legal e protecção dos direitos de propriedade; (3) Sistema
Monetário; (4) Comércio Internacional; e (5) Regulação. A classificação é
dada numa escala de 0 a 10.
Uma análise
cruzada entre os resultados do EFW e vários indicadores económicos
permite tirar as seguintes conclusões:
1. Os países com maiores índices de LE crescem mais rapidamente;
2. Os países com maior LE atraem mais investimentos e geram uma maior
produtividade dos mesmos;
3. Existe um forte correlação postiva entre as diferenças no índice de LE e
as diferenças nas taxas de crescimento económico de longo prazo dos países
estudados.
Algumas classificações:
1. Hong Kong (8.7)
2. Singapura (8.6)
3. Nova Zelândia, Suiça, Reino Unido e Estados Unidos (8.2)
7. Austrália e Canadá(7.9)
9. Irlanda e Luxemburgo (7.8)
...
22. Alemanha (7.3)
...
27. Portugal (7.2)
....
31. Espanha (7.1)
...
36. Japão (7.0)
...
44. França (6.8)
...
51. Israel (6.6)
...
74. Brasil (6.2)
...
86. Argentina (5.8)
...
114. Rússia (5.0)
...
117. Guiné-Bissau (4.8)
118. Argélia e Venezuela (4.6)
120. República Centro Africana (4.5)
121. República Democrática do Congo
(4.4)
122. Zimbabwe
(3.4)
123. Myanmar
(2.5)
De 2002 para 2003 Portugal desceu
três posições no EFW (de 24º para 27º). A classificação absoluta manteve-se
(7.2) mas fomos ultrapassados por países que lograram aumentar o nível de
liberalização das suas Economias.
Olhando para as classificações
(ver p. 31) parciais por área (da melhor para a pior pontuação) concluímos o
seguinte:
O ponto forte de Portugal é a parte referente ao sistema monetário e
financeiro ("3. Access to Sound Money”). Na evolução deste indicador
houve um grande "salto" de 1990 para 1995 (de 5.7 para 9.2
situando-se em 2003 em 9.6). A disciplina imposta pelo SME e pelo Euro foi
claramente benéfica a um sistema monetário anteriormente conhecido pelo seu
laxismo.
Continuando no sentido
descendente, a segunda área mais forte de Portugal é a "Estrutura legal
e protecção dos direitos de propriedade". Neste indicador obtemos uma
classificação de 7.6 que (apesar de algum descréscimo - e com um deslize para
6.6 em 1985) não tem sofrido grandes alterações desde 1980. Registo que em
1975 este valor era de 1.4. Sintomático...
Nesta área, os indicadores onde obtivemos pior classificação foi na
"Imparcialidade dos Tribunais" (5.5) e na "Protecção da
Propriedade Intelectual" (6.2).
Na "Liberdade de Comércio
Internacional" Portugal obtém uma classificação de 7.8.
Nas alíneas deste indicador obtivemos, em geral, boas classificações. O que
nos penalizou foi a "Dimensão do Secto Importador/Exportador" onde
obtivemos apenas 4.0.
Realço também a sub-alínea "Barreiras Ocultas à Importação" onde
passámos de 8.9 em 2002 para 8.0 em 2003. Esta evolução negativa parece
configurar um aumento das medidas proteccionistas não-convencionais.
Outro ponto negativo é a sub-alínea "Restrições às Transacções
Financeiras com o Estrangeiro" com uma classificação de 6.2.
É de esperar que com as sucessivas rondas negociais e as decisões emanadas da
OMC este indicador (em especial as alíneas A. e B.) registem valores
superiores.
O segundo pior resultado que
obtivemos foi na "Regulação de Crédito, Trabalho e Empresas" onde
obtivemos uma classificação de 6.0. Este indicador é subdividido em três
alíneas (crédito, trabalho e empresas).
Na regulação do crédito obtivemos uma boa classificação (8.4). Nota-se uma
grande evolução nesta alínea a partir de 1990 e (posteriormente) em 1995. A
revisão da norma constitucional de delimitação de sectores na segunda metade
da década de 80, que possibilitou o (re)aparecimento de bancos privados, e as
sucessivas operações de privatização do sector bancário nacionalizado (já na
década de 90) assim como a desregulação do mercado de crédito contribuíram
para esta evolução.
De referir ainda a fraca classificação obtida na sub-alínea 5.A.(ii)
"Competição de Bancos Estrangeiros" onde se verificou uma evolução
negativa de 1995 para 2002 (7.3 para 6.0). Penso que este resultado estará
intimamente ligado ao processo de concentração que se verificou na banca
portuguesa nos últimos anos.
Como seria de esperar obtemos um péssimo resultado na alinea 5.B
"Regulação do Mercado de Trabalho" (4.3).
As rigidez da legislação laboral, é por todos, sobejamente conhecida. Não
obstante as alterações introduzidas com a recente revisão da legislação
laboral (ainda não reflectidas no EFW 2004) penso que este continua a ser um
dos grandes óbices ao salutar desempenho das empresas. Nomeadamente na
capacidade destas em responder prontamente às alterações, quer conjunturais,
quer estruturais. O que pensamos ganhar na "segurança de emprego"
não compensa as perdas no (desnecessário) prolongamento das recessões e na
perda de competitividade das empresas. Para terminar deixo a classificação
obtida em cada sub-alínea:
(i) "Impacto do Salário Mínimo" (4.0)
(ii) "Flexibilidade Na Contratação/Despedimento" (2.8)
(iii) "Percentagem de Negociação Colectiva" (5.7)
(iv) "Subsídio de Desemprego" (3.9)
(v) "Seviço Militar Obrigatório" (5.0) - Este, felizmente, em vias
de acabar.
A última alínea deste indicador é a "Regulação das Empresas" onte
obtemos 5.2. Os resultados de três sub-alíneas estão relacionados com o
excesso de burocracia da Administração Pública que coloca Portugal (quase) ao
nível do Terceiro Mundo. Outro mau resultado é obtido ao nível do
"Controlo de Preços" (que afecta sobretudo - salvo erro - os bens
não-transaccionáveis).
Realço ainda que o resultado obtido nas duas últimas alineas comentadas
(Regulação do Mercado de Trabalho e Regulação das Empresas) pouco têm
evoluído nos sucessivos relatórios do EFW.
O último indicador a analisar no EFW é o que
diz respeito à "Dimensão do Governo". Este indicador corresponde à
nossa pior classificação (5.0). O propósito deste indicador é medir o peso e
a influência do Governo na Economia nacional através do consumo público (que
condiciona a actividade privada), das transferências e subsídios estatais, do
peso da empresas estatais na Economia e da taxas marginais superiores de
imposto.
O valor deste indicador têm-se mantido mais ou menos constante desde 1975,
embora tenha existido alguma evolução de 1985 para 1990. Significa isto que
embora tenha diminuído o papel empresarial do Estado, dando lugar às empresas
privadas, os sucessivos Governos têm sido extremamente relutantes em largar
mão da sua influência na Economia nacional.
Depois de dissecadas as razões (e
analisada a evolução) da nossa classificação no EFW é possível apontar quais
os pontos onde podemos (e devemos) melhorar.
A Dimensão do Governo (1), o Sistema Judicial (2.B), a Legislação Laboral
(5.B) e a Regulação Empresarial (5.C) são os pontos onde devemos focalizar a
nossa atenção. Se o segundo e o último parecem reunir um consenso alargado
(pelo menos quanto à necessidade de alteração das condições actuais),
qualquer tentativa de alteração nos restantes dois ainda provoca de enormes
resistências. Às resistências corporativas e/ou ideológicas deve somar-se o
obstáculo constitucional.
É sintomático que a nossa melhor classificação seja obtida no indicador
("Access to Sound Money") onde o governo português tem o menor grau
de controlo. Em todos os outros (onde o papel do Governo e da AR seria
preponderante) variamos entre a estagnação ou a lenta evolução.
Julho de 2004
Miguel Noronha
*originalmente publicado no blog O Intermitente
Causa Liberal
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