As Agruras do Estado Social

 

Por Miguel Noronha

 

No recentemente editado “The Welfare State We’re In” (Politico’s, 2004),  James Batholomew (JB) expõe um retrato retrato devastador do panorama económico e social da Grã-Bretanha.

 

De uma sociedade conhecida pela polidez de maneiras que percorria todos os estratos sociais (os gentlemen) esta regrediu para outra cujos turistas e adeptos de futebol são temidos e indesejados pelo seu comportamento anti-social (os hooligans). Não obstante as reformas introduzidas por Magaret Thatcher, no início dos anos 80, a Velha Albion não mais recuperou o dinamismo e a liderança económica de outrora. Embora apresentando taxas de crescimento acima da média da UE, a economia britânica passou inoxeravelmente para segundo plano. O seu sistema de ensino, em especial as suas famosas universidades, é hoje conhecido como uma “fábrica de analfabetos” (cf. Melanie Philips, “All Must Have Prizes”, Time Warner, 1996).

 

A causa maior do declínio está na progressiva intromissão do Estado na sociedade substituindo funções anteriormente desempenhadas pela sociedade civil. Por outras palavras, a construção do Welfare State. Esta “infiltração” teve como consequência a desresponsabilização do indivíduo perante o seu próximo e mesmo perante o seu próprio destino. Os sucessivos programas de “engenharia social” levados a cabo pelos responsáveis políticos destruiram as intituições, formais e informais, anteriormente vigentes (e que, reconhecidamente, no caso britânico, tinham dado provas da sua eficácia) causando autênticos pesadelos dignos de países do Terceiro-Mundo.

 

Muitas vezes, o resultado obtido pelos programas não correspondeu aos desideratos de quem os implementou. Os projectos de engenharia social costumam frequentemente surpreender os seus mentores.

 

Considerem-se, a título de exemplo, medidas como o subsídio de desemprego e a construção de bairros sociais. O subsídio de desemprego, que pretendia suprir as dificuldades dos trabalhadores desempregados, tornou-se um estímulo ao desemprego. Como é demonstrado sem margem para dúvidas, os maiores aumentos da taxa de desemprego verificam-se em alturas em que o valor real do subsído aumenta (e logo o desincentivo ao trabalho). Os bairros sociais, que pretendiam melhorar as condições de habitação dos mais pobres, deseraizaram comunidades inteiras e criaram autênticas “zonas de guerra” em que até a policia se recusa a entrar.

 

Exitiram, segundo JB, três momentos determinantes na referida destruição das instituições da sociedade civil e na implementação do Welfare State.

 

O primeiro momento está relacionado com a separação da Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana levada a cabo por Henrique VIII. A consequente (e conveniente) expropriação das ordens religiosas obrigaram à adopção das primeiras poor laws. Para fazer face aos problemas sociais criados pela desaparição da ordens e do trabalho assistencial por estas desempenhado, o monarca pretendia, por decreto, obrigar a sociedade a assumir as funções que estas anteriormente desempenhavam.

 

Já no início do Séc. XX, num segundo momento, o governo liberal de Lloyd George (em que participava o jovem Winston Churchill), temendo a crescente influência dos trabalhistas, adopta algumas das medidas introduzidas na Alemanha por Bismarck.

 

O derradeiro, e talvez mais decisivo passo na construção do Welfare State, foi a eleição do governo trabalhista de Clement Attlee após a IIª Guerra Mundial. Por ironia do destino o derrotado foi Winston Churchill (agora regressado ao Conservadores) que durante a campanha se opôs veementemente aos projectos sociais dos seus adversários. Em seu auxílio recorreu a uma obra recemente publicada por um exilado austríaco chamado Friedrich Hayek intitulada “O Caminho Para a Servidão”.  Foi duramente criticado por recorrer a um autor estrangeiro ainda para mais proveniente de um país do Eixo.

 

Apesar do embrião do Welfare State já existir há muito (devido principalmente às medidas de Henrique VII e Lloyd George) o governo de Attlee elevou o papel do Estado, enquanto dirigente da sociedade, a novos patamares. Para além de tornar permanentes algumas medidas já existentes (parte delas justificas pelo esforço de guerra) criou novos programas que nenhum governo, até a eleição de Thatcher, ousou revogar.

 

O irónico ou, melhor dizendo, o trágico desta história é que, na maior parte dos casos, aquando da intervenção estatal, a iniciativa privada já supria de forma conveniente as necessidades da população (como no caso do sistema de ensino [cf. “Government Failure: E.G. West on Education”, IEA, 2003] ou na assistência aos mais pobres) não se justificando, de qualquer forma, a acção do Estado. Substituiu-se um sistema descentralizado e adaptativo por outro centralizado, estático e ineficiente. O resultado é trágico.

 

 

Março de 2005

Miguel Noronha

 

Causa Liberal