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Rawls e a Engenharia Genética* Por Manuel Menezes de Sequeira “Se
pudéssemos garantir honestamente a jovens casais que sabemos como lhes dar
uma descendência com características superiores, porque haveríamos de admitir
que eles declinariam [a proposta]? Os que estão no topo das sociedades de
hoje poderiam não achar necessário. Mas se a nossa vida não tiver
perspectivas, não devemos aproveitar a oportunidade de dar um forte impulso
ao futuro dos nossos filhos? O senso comum diz-nos que se os cientistas
descobrirem formas de aumentar em muito as capacidades humanas, ninguém
conseguirá impedir o público de as aproveitar com alegria”. Quem o disse foi James D. Watson, que em 1962,
em conjunto com Francis Crick e Maurice
Wilkins, ganhou o Prémio Nobel da Medicina pela
descoberta da estrutura do ADN. A engenharia
genética causa problemas sérios a qualquer teoria política. À primeira vista,
a única solução aceitável do ponto de vista do liberalismo clássico é a de
“excluir os governos das decisões genéticas”, como diz Watson,
acrescentando que receia que “qualquer forma de restrição social das decisões
genéticas individuais” resulte apenas No caso da
social-democracia, ou do liberalismo-social, como
vai ficando na moda dizer, não é necessário que a essência humana seja
afectada para que surjam problemas graves. Suponha-se que a engenharia
genética atingiu o ponto previsto por Watson, ou
seja, que é possível eliminar a “lotaria genética” (que, recorde-se, John Rawls considera moralmente
arbitrária), atribuindo-se a cada embrião talentos naturais (ou o seu
potencial) de forma igualitária. Suponha-se ainda que as manipulações
necessárias para o fazer são mínimas, não afectando a essência humana nem
eliminando totalmente os traços dos progenitores, permitindo assim manter a
ligação afectiva natural das relações entre pais e filhos. Nestas
circunstâncias, que “estrutura básica da sociedade” escolheriam as “partes”
de Rawls, na sua “posição original” e sob o “véu de
ignorância”? Não há aqui
espaço para tentar deduzir a decisão das partes a este respeito. O próprio Rawls apenas se refere ao problema de passagem, no seu
livro “Uma Teoria da Justiça” (§17). Segundo ele “é do interesse de cada
um possuir maiores bens naturais” e por isso “as partes pretendem garantir
aos seus descendentes o melhor legado genético”. Assim, “a prossecução de
políticas razoáveis deste ponto de vista é algo que as gerações devem às que
se lhes seguem […]” e, “ao longo do tempo, a sociedade deve tomar medidas
para pelo menos preservar o nível geral de aptidões naturais e para prevenir
a difusão de defeitos graves”, podendo mesmo conjecturar-se que “a longo
prazo, se existir um limite máximo das aptidões, se atingirá por fim uma
sociedade com a maior liberdade equitativa cujos membros gozam do maior
talento equitativo”. Rawls nunca refere que tipo de instituição seria escolhida pelas partes para
garantir “o melhor legado genético”, nem tão pouco se se
trata do melhor legado genético para cada um ou para a sociedade no seu todo,
usando um qualquer método de agregação. No entanto, dados os problemas,
reais, que Rawls aponta a critérios que recorrem à
optimização de uma agregação de grandezas cardinais (usados por exemplo nas
teorias utilitaristas), e dada a arbitrariedade moral que encontra na
“lotaria genética”, atrevo-me a dizer que as partes escolheriam inevitavelmente
o controlo genético da população por parte do estado. Se Fukuyama propõe uma regulação negativa, estabelecendo
limites discutíveis para a liberdade dos indivíduos, parece-me possível
argumentar que a teoria da justiça de Rawls
colocaria nas mãos do estado um controlo quase absoluto sobre o legado
genético dos indivíduos. Afinal, se a lotaria genética é moralmente
arbitrária (tal como o é a lotaria social), é porque para Rawls
o nosso código genético não é algo nos define, mas algo que possuímos, como
um qualquer outro bem material, e que por isso deve também ser redistribuído,
ou pelo menos igualizado. Abril de 2005 Manuel Menezes de Sequeira *originalmente publicado no semanário Domingo
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