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Faleceu Orlando Vitorino (1922-2003)* Só soube
ontem (Sexta-feira), através de uma notícia na secção cultural do jornal
"Público" que falecera no passado Domingo o Dr. Orlando Vitorino, o
maior vulto intelectual do liberalismo português contemporâneo. Licenciado
pela Faculdade de Letras de Lisboa em Filologia Românica e Ciências
Histórico-Filosóficas, Vitorino veio a revelar-se um dos mais originais
pensadores da corrente denominada Filosofia Portuguesa e teve uma intensa
actividade enquanto crítico, jornalista e publicista, e ainda como encenador
e realizador de cinema. O seu legado intelectual teve a feliz originalidade
de ligar explicitamente a tradição filosófica em que se situava à tradição
liberal, o que ficou magistralmente exposto na sua principal obra,
"Refutação da Filosofia Triunfante" (1976), em que atacou
profundamente a mentalidade colectivista que suportava o então triunfante
socialismo português. Nessa obra, Vitorino defende um são individualismo
assente nos três princípios inseparáveis da procura da Verdade (legada pela
filosofia clássica dos Gregos), da Justiça (legada pela ordem jurídica
romana) e da Liberdade (legada pelo cristianismo) e que são o ponto de
partida para a defesa que faz da "politeia" aristotélica (a que
chama "poliarquia") como melhor regime político e da economia
política dos clássicos como o melhor sistema económico (embora com a lucidez
de já recorrer aos Austríacos, e a Mises em particular, para abordar a
questão do valor e da moeda). O milagre intelectual que representou o
aparecimento de um tal livro no Portugal de então foi continuado por um
persistente esforço de Vitorino em divulgar o liberalismo nas suas vertentes
filosófica, política e económica: na revista "Escola Formal" atacou
o sistema estatal de educação, em 1980 traduziu e editou "O Caminho para
a Servidão" de F. A. Hayek e em 1983 publicou "Exaltação da
Filosofia Derrotada", um complemento à "Refutação", em que
apresenta e faz o elogio de Mises, Hayek e Friedman (embora se identificasse
sobretudo com os dois primeiros). Convém ler as obras de Vitorino para nos
espantarmos não só com a clareza cristalina da sua argumentação, mas também
com o entusiasmo que as ideias liberais imprimiram a um intelectual opositor
do Estado Novo que recusou o consenso marxista desse lado da
"barricada"; poucos homens do meio cultural no Ocidente (quanto
mais em Portugal!) poderiam dizer, como Vitorino pôde confessar, que a
descoberta dos grandes economistas liberais do século XX foi uma experiência
de profunda libertação e felicidade intelectual. E talvez Vitorino tenha
chegado a saber que, para outros, mais novos, um livro como a
"Refutação" representou exactamente a mesma experiência... Dezembro de 2003 Luís Aguiar Santos (consulte outros artigos do mesmo autor aqui) *originalmente publicado no blog da Causa Liberal no dia 20 de Dezembro de 2003 |