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WHY WE LOVE MAGGIE: uma recensão de Margaret
Thatcher - Statecraft: strategies for a
changing world (Nova Iorque: HarperCollins Publishers, 2002, 486 p.)* por LUÍS AGUIAR “Ich
bin eine Engländerin, zur Freiheit geboren!” – Die Entführung aus dem Serail KV 384, acto II n.º 8 Uma excêntrica de “ferro” ou porque “the lady’s not for turning” Os escritos até agora conhecidos de Margaret Hilda
Roberts Thatcher (n. 1925) eram os seus dois volumes de memórias e os
discursos (The Collected Speeches,
1998), todos publicados pela Harper Collins; o novo volume agora aparecido, Statecraft, é escrito num registo
diferente e é um afinado grito de sobrevivência da “Dama de Ferro” à procura
de um lugar na memória e no século XXI. Se em Path to Power (1995) Thatcher se preocupara em explicar as raízes
das suas ideias na Grã-Bretanha do pós-guerra e daquilo que ficou conhecido
como “thatcherismo”, em The Downing
Street Years (1993) dera já, em parte, um conteúdo mais cosmopolita às
suas memórias, focando muitos aspectos relacionados com a política externa
dos gabinetes que liderou. No livro aqui recenseado, Statecraft, a antiga primeiro-ministro britânica (entre Março de
1979 e Novembro de 1990) apresenta um olhar ainda mais global sobre a
política, no qual a Grã-Bretanha se torna apenas parte, e já não o ponto
privilegiado de observação, de uma realidade mundial que a sua escrita tenta
captar. É evidente que o livro assume a sua condição de olhar ocidental, ou
anglo-saxónico, sobre o mundo actual e Thatcher parece escrever
primacialmente para os países de língua inglesa; mas o arrojo globalista do
livro fá-lo transpor essas fronteiras, o que está patente nas traduções que
tem merecido noutras paragens [a edição recenseada é a original, mas
existe tradução portuguesa: A Arte de
Bem Governar: estratégias para um mundo em mudança, Lisboa: Quetzal, 2002
(trad. Victor Antunes); os discursos completos de Thatcher desde 1945 estão
disponíveis no site da Margaret Thatcher Foundation em
www.margaretthatcher.org]. Em Portugal, apesar de ter admiradores, Thatcher não tem suscitado
grandes simpatias no mundo político, avesso à sua paixão pelo mercado livre
com Estado pequeno mas forte e ao seu cepticismo perante a “concertação
social” e a União Europeia; a sua posição ideológica é normalmente
apresentada como “extremista” face ao consenso do “Estado social” que, na
Europa continental, atravessa o espectro político que vai do socialismo
democrático à democracia cristã. Essa excentricidade ideológica do
“thatcherismo” tornou-se mais evidente quando Thatcher entrou em colisão com
o projecto federalista europeu no fim da década de 80, tendência que a
ex-estadista aprofunda no novo livro. Isso permitiu a alguns apresentá-la
como uma tory demasiado apegada a
um “nacionalismo ultrapassado” ou a uma mentalidade profundamente
conservadora, out of touch com os
ventos de mudança do novo século. Quanto a isto, convém ganhar alguma
perspectiva e tentar situar correctamente o “thatcherismo” na história das
ideias políticas, já que a baronesa pertence a uma ala não propriamente
“direita” mas “libertária” do conservadorismo britânico [sobre o libertarian strand do conservadorismo
britânico, veja-se W. H. Greenleaf, The
Ideological Heritage, Londres: Routledge, 1988, pp. 263-308]. Thatcher foi, aliás, a
protagonista da revolução ideológica no Partido Conservador que decisivamente
destronou no seu seio a tradição disraeliana do “social-Toryismo”
paternalista (com afinidades com a terceira via dos democratas cristãos
continentais) e o aproximou da matriz whig
dos “conservadores” norte-americanos. A raiz whig comum desse “conservadorismo” dos dois lados do Atlântico –
que, na Europa continental, se designa mais correctamente “liberalismo
clássico” por nunca se ter tornado, como no mundo anglo-saxónico, a
substância da tradição política do Estado e da sociedade – é identificada
pela própria autora: «it was from our Locke and Sidney, our Harrington and
Coke, that your Henry and your Jefferson, your Madison and Hamilton took
their bearings» (Statecraft p. 22,
de discurso de Thatcher na Virgínia em 1994). Esta identidade política, que
levou Milton Friedman a dizer nos anos 80, com razão, que Thatcher era mais
uma “liberal do século XIX” do que uma tory,
permite compreender não só o apego de Thatcher ao laissez faire (veja-se o capítulo 11) e à tradição jurídica civil
da common law (distinta de um
direito criado centralmente pelo Estado, como prevalece no continente europeu
e agora na União Europeia), mas também a sua preferência confessada pelos
Estados Unidos enquanto principal parceiro económico, político e cultural do
Reino Unido. Essa matriz whig do
pensamento de Thatcher está bem patente no capítulo 7, com a sua concepção
individualista dos direitos humanos, crítica dos chamados “direitos sociais”
e, na senda de Burke, céptica perante a formulação abstracta e desenraizada
de “direitos” que ficam prisioneiros de interpretações circunstanciais e do
voluntarismo político para a sua implementação – Thatcher considera que as
religiões tradicionais e o direito civil das sociedades desempenham melhor
esse papel. A “excentricidade” de Thatcher na Europa resultaria, assim, não
de ser particularmente “conservadora” se comparada com o mainstream do continente, mas de assumir uma tradição política
mais individualista (anglo-saxónica), distinta da matriz continental mais
colectivista (romano-germânica); em Statecraft,
Thatcher parece querer mostrar que essa diferença não implica uma visão mais
fechada da realidade, mas, pelo contrário, é a mais apropriada a um “mundo em
mudança”. Esta reaparição de uma das figuras do grande dueto neoliberal dos
anos 80 (a outra é Ronald Reagan, a quem Thatcher dedica Statecraft), com as suas ideias de sempre bem desfraldadas e
agora dialogando com os problemas do novo século, indisporá certamente os
dedicados adversários desta filha de merceeiro e ex-aluna de Oxford que
conseguiu conquistar por onze anos o n.º 10 de Downing Street; mas essa
tenacidade de Thatcher não deve espantar se nos lembrarmos do que ela
afirmou, perante a conferência conservadora de 1980, num discurso que ficou
célebre: «You turn if you want to; the lady’s not for turning». O papel mundial dos Estados Unidos ou unir o útil ao agradável Numa entrevista à Time, após a sua terceira vitória eleitoral consecutiva, em 1987,
Thatcher declarava o seu “pró-americanismo”, explicando que via os Estados
Unidos (“a América”) como o prolongamento da Europa e o florescimento
civilizacional do melhor da cultura europeia; em Statecraft, a Iron Lady
mantém esta visão tão contrastante com a de muitos europeus, que gostam de
pensar-se como culturalmente distintos (quando não moralmente superiores) dos
Norte-Americanos. Deste modo, para ela, a situação criada pelo esboroamento
da União Soviética – a emergência dos Estados Unidos como única superpotência
– é menos um problema do que uma oportunidade. Para Thatcher, a liderança
norte-americana resultante do fim da “Guerra Fria” é uma feliz coincidência
de capacidade moral e material: os Estados Unidos têm um regime
jurídico-político que, não isento de críticas, é para ela essencialmente
modelar, o que, juntamente com a sua força económica e militar, faz da
federação norte-americana o único Estado com legitimidade e poder suficientes
para intervir na resolução de crises internacionais. Thatcher pensa sobretudo
em dois problemas quando apresenta os Estados Unidos como a peça-chave do
equilíbrio mundial: a agressão militar ou terrorista de determinados Estados
e a proliferação de armas de destruição massiça. Quem, senão os
Norte-Americanos, pergunta ela, pode pôr na ordem tiranos que invadem outros
Estados, promovem o terrorismo ou estão dispostos a reunir arsenais
nucleares, químicos ou bacteriológicos? Num mundo ideal talvez existissem alternativas,
mas no mundo real subsiste a incapacidade das Nações Unidas e a falta de
vontade política e poder militar dos outros Estados democráticos; constatando
esse facto, a autora julga que o mais sensato é os aliados dos E.U.A.,
sobretudo os de língua inglesa, cooperarem nessa função que alguém tem de
desempenhar. Quanto às intervenções militares, independentemente das suas
justificações morais, Thatcher defende que só serão bem sucedidas se tiverem
objectivos claros (basicamente militares) e se evitarem a armadilha do
moderno espírito de “cruzada democrática” segundo o qual o Ocidente pode
refazer sociedades (ela acha que não deve sequer tentar). Este empenho na
segurança global passa por o Ocidente corrigir urgentemente o dano causado
por cortes orçamentais excessivos com a Defesa, na Europa em particular, e
por um esforço dos E.U.A. de assegurarem a existência de aliados seus em
todas as regiões do globo. Thatcher não acredita que se possam erradicar as
armas nucleares, pelo que prefere que se assuma a necessidade de as testar e
modernizar, de modo a serem mais controláveis; este controle passa ainda por
aceitar-se os arsenais já existentes (nomeadamente o indiano e o
paquistanês), mas, ao mesmo tempo, investindo-se na construção de um sistema
de defesa global contra mísseis balísticos e insistindo-se no impedimento de
constituição de novos arsenais (caso do Iraque), para o que se devem usar e
aperfeiçoar os meios tecnológicos actuais de vigilância. A baronesa chama
ainda atenção para o elemento humano da Defesa, lembrando que a tecnologia
não resolve tudo: neste aspecto, defende ser necessário restaurar uma cultura
de disciplina militar, fundamental para a eficiência das forças armadas e a
segurança de todos; para tanto, ataca os lobbies do politicamente correcto
que parecem querer tornar a vida militar numa réplica da vida civil, a
expensas da disciplina e da dureza dos treinos (são obviamente aqui visados
os militantes homossexuais e feministas que vêm atacando, sobretudo nos
E.U.A., as regras internas das forças armadas como lesivas da “igualdade de
oportunidades” e das suas opções de vida). Os desafios à segurança global que
a comunidade internacional liderada pelos E.U.A. tem de enfrentar tornaram-se
mais claros após os acontecimentos trágicos de 11 de Setembro de 2001; mas
Thatcher apresenta um quadro no qual os focos de perigo se devem mais a
regimes belicosos dominados por um nacionalismo agressivo e autárcico (e que
podem eventualmente dar apoio ou guarida a redes terroristas como a Al Qaeda)
do que a qualquer ameaça geral e concertada contra o Ocidente. Tendo
consciência das rivalidades e interesses divergentes entre países islâmicos
(pelo que se recusa a olhar para o Islão como um todo ou como “um” problema),
Thatcher chama ainda atenção para a Coreia do Norte, como prova de que o
Islão em si mesmo não é a causa dos perigos actuais para a segurança global.
Para ela, é fundamental que se previnam as acções agressivas desses regimes,
o que passa também por tentar impedi-los de constituir arsenais perigosos
para os seus vizinhos e para a segurança global; para tanto, Thatcher adopta
uma atitude realista de que isso só
se conseguirá através da exibição da força e da séria promessa do seu emprego
em caso de agressões ou obvias intenções de agressão. Esta atitude, mais
próxima dos E.U.A., choca com a estranha insistência europeia em eternas
negociações, na prática sem resultados positivos e contemporizadores com a
estratégia armamentista desses regimes. Assim, a Coreia do Norte deve ser
pressionada no sentido de parar o seu rearmamento nuclear e devem-lhe ser
impostas inspecções que a dissuadam de construir armas de destruição massiça;
se não cumprir estas condições, deve deixar de receber qualquer apoio. Quanto
a Saddam Hussein, Thatcher insiste que este não é um mártir do Islão, mas
alguém que explora desavergonhadamente a religião e os sentimentos dos
Árabes, afirmando que as sanções contra o Iraque devem manter-se porque não
haverá paz nem segurança na região enquanto Hussein permanecer no poder. Para
a baronesa, a grande prioridade deve ser parar, através da pressão, planos de
armas de destruição massiça que ameaçam directamente Israel e a Turquia e
indirectamente o Ocidente. A longo prazo, se se conseguir aliviar a tensão
entre Israel e os Palestinianos, a Síria poder-se-á tornar uma força mais
positiva na região; por seu lado, uma Líbia governada pelo coronel Kadafi
nunca será “segura” e, embora os incentivos ao “bom comportamento” sejam
úteis para limitar a ameaça de Kadafi, a única forma de o conter é manter uma
promessa credível de recurso à força. Sobre o caso do Irão, Thatcher afirma
persuasivamente que não é com a “revolução islâmica”, cujo potencial sempre
foi inflacionado, mas com o armamento de alguns países islâmicos, que nos
devemos preocupar: o Ocidente deve ser claro com o regime de Teerão de que
está pronto a respeitar os interesses regionais iranianos, mas não ao ponto
de deixar o Irão tornar-se detentor de armas nucleares. No que diz respeito à
importante questão do conflito israelo-árabe, a autora defende que os Estados
Unidos e não as Nações Unidas ou a Europa são o único mediador credível e que
a paz não pode ser imposta, nem sequer pelos E.U.A., sem ser aceitável para
israelitas e palestinianos; quanto a isto, parece-lhe que os Norte-Americanos
não devem impacientar-se com a inflexibilidade israelita, já que Israel tem
uma longa experiência com o terrorismo e não deve nunca correr riscos com a
sua defesa (o que no caso de um conflito poderia comprometer definitivamente
a paz). Porém, mediadores e israelitas têm de perceber que os líderes
palestinianos moderados precisam de apresentar resultados ao seu povo para o
subtrair à influência dos radicais: isto implica a construção de uma
autonomia real conducente a um estado palestiniano pleno. Thatcher lembra, no
entanto, que os líderes palestinianos, para conquistarem a confiança
israelita, têm de neutralizar os que fomentam e praticam o terror, e que
Yasser Arafat não tem aqui feito o suficiente; ao mesmo tempo, facilitaria a
construção da paz na região se os Palestinianos percebessem que o seu futuro
estado será pequeno, pobre e dependente da Jordânia e de Israel, pelo que têm
interesse em manter a boa vontade dos Israelitas. A Europa, os Balcãs e a Rússia ou por que razão o mundo não mudou
assim tanto Antes dos dois conflitos mundiais do século XX,
uma Europa politicamente plural vivia angustiada com o emergente peso e
protagonismo da Alemanha, a incógnita do gigante russo e problemas
complicados nos Balcãs, enquanto a Grã-Bretanha, dados os seus compromissos
transoceânicos, se mantinha com um dos pés no Atlântico e supostamente
alheada dos assuntos continentais; a análise de Thatcher mostra que, embora
disfarçado por relevantes transformações sociais e políticas dentro de cada
uma das sociedades europeias (e por algumas décadas de cortina de ferro, que baralharam um pouco este estado de coisas),
tal esboço geral não se alterou por aí além. A ex-estadista que, em meados da
década de 80, disse que Gorbatchev era o homem com quem o Ocidente podia
“fazer negócio”, mostra-se em Statecraft
pouco convencida que a Rússia tenha mudado muito desde a perestroika; segundo Thatcher, as reformas reais têm sido poucas
e há ainda um largo caminho a percorrer. Por outro lado, a autora adverte o
Ocidente de que a Rússia mantém ainda ambições que são concorrentes das dos
Estados Unidos e da Europa Ocidental e que iludir esse facto em nome da boa
vizinhança seria prejudicial para ambos os lados, pelo que o Ocidente não
perde nada (antes pelo contrário) em falar com “voz grossa” à Rússia; como
ela diz, quando isso acontece, o mais das vezes os Russos cedem, até porque
precisam mais do Ocidente do que o Ocidente deles. Embora céptica em relação
a uma diplomacia baseada numa “cruzada” pelos Direitos Humanos, Thatcher não
deixa curiosamente de defender uma função “pedagógica” dos políticos
ocidentais que, segundo diz, deveriam falar com desassombro aos líderes
russos sobre procedimentos inaceitáveis, como os das forças militares russas
na Chechénia ou as tentativas de interferência de Moscovo na política interna
das antigas repúblicas soviéticas entretanto emancipadas (a autora defende o
apoio à adesão dos países bálticos à N.A.T.O. e a cooperação com a Ucrânia e
os estados da Ásia Central e do sul do Cáucaso, cuja independência interessa
ao Ocidente, para conter a vocação imperial russa). Assim, a ajuda ocidental
à Rússia, nomeadamente através do F.M.I., deve estar condicionada à
implementação de reformas reais porque, de contrário, apenas serve para
financiar o statu quo e ser associada internamente ao próprio falhanço das
reformas: não se devendo esquecer que a Rússia mantém armas de destruição
massiça, parte dessa ajuda ocidental dever-se-ia orientar para a vigilância
desses arsenais, como acontece com o programa Nunn-Lugar. Quanto ao problema
balcânico, a tendência agressiva e expansionista dos tradicionais aliados da
Rússia na região – os Sérvios – é vista pela baronesa como o principal
elemento desestabilizador, que deve ser contido; para tanto, Thatcher
mostra-se favorável quer à ajuda à consolidação da independência da
Bósnia-Herzegovina quer à auto-determinação do Kosovo sob a protecção da
N.A.T.O. Na sua opinião, os problemas humanitários criados na ex-Jugoslávia
deveram-se à demora numa resposta contra a Sérvia, o que foi mais um exemplo
da incapacidade da União Europeia de agir sem os Estados Unidos; as divisões
entre os estados-membros sobre o conflito e a reticência habitual em usar a
dissuasão militar para forçar os agressores à inacção deram, durante vários
anos, cobertura às atrocidades perpetradas pelo regime de Milosevic. Mas,
para Thatcher, esta incapacidade da U.E. está no presente ligada a um
problema mais profundo: o facto de a generalidade dos políticos europeus,
reconhecendo tal incapacidade, julgarem-na resolúvel pela concentração de
poderes num centro de decisões continental, em vez de admitirem a
desadequação do modelo de superpotência para a Europa. Como diz a autora, não
haverá superpotência europeia sem superestado europeu e, quanto a este, Thatcher
adverte que será impossível dotá-lo de mecanismos efectivos de controle
democrático; para a baronesa, não só o comportamento dos principais líderes
europeus, evitando sistematicamente as consultas populares sobre os grandes
passos tendentes à construção de uma federação (tratados, união monetária) é
uma prova irrefutável de uma cultura política elitista e burocrática já
instalada, como um mega-parlamento continental e longínquo para cada
sociedade europeia seria incapaz de reflectir os anseios e os interesses
concretos dos membros dessas sociedades. Por outro lado, Thatcher defende que
a teia de regulações e mecanismos planificadores (como a P.A.C.) construídos
pela U.E. prejudicam a vitalidade económica dos estados membros e esbatem em
muito as vantagens iniciais de livre troca e circulação do mercado único; por
essa razão, aconselha os países do Leste (cuja vantagem competitiva do menor
custo do trabalho essa teia se encarregará em grande parte de anular) a
preferirem, em vez da adesão, tratados de comércio com a U.E. – mas também
com a N.A.F.T.A. e, como Thatcher gostaria, com um Reino Unido desvinculado
da U.E. Esta desvinculação é uma das propostas mais polémicas de Statecraft e vem na sequência de
ideias já antes avançadas por Patrick Minford (Britain and Europe: the Balance Sheet, MCB University Press,
1996) ou John Hulsmann (The World
Turned Rightside Up: A New Trading Agenda in the Age of Globalisation,
Londres: I.E.A., 2001): para estes autores, não só o “modelo social europeu”
é desvantajoso para os interesses britânicos como uma área de comércio livre
que ligasse a Europa e a América do Norte deveria ser o verdadeiro objectivo
daqueles que se dizem defensores do mercado e adversários do nacionalismo
isolacionista. Ora, para Thatcher, as ideias federalistas na U.E. estão a
transformá-la num projecto de super Estado-nação, dotado já de um esforço
assumido de nation-building
(patente na ideia de uma “cidadania europeia”) e de uma crescente regulação
interna que anestesia as economias dos países membros e estimula nelas
reflexos proteccionistas em relação à América do Norte e a outras áreas
comerciais do planeta. Por isso, para a baronesa, numa era de globalização, o
Reino Unido tem tudo a perder se se relacionar com o wider world de dentro desse espaço europeu assim construído; por
outro lado, dado o facto dos interesses económicos britânicos continuarem a
canalizar a maior parte dos seus investimentos para os E.U.A. (43.8% contra
apenas 35.5% para a U.E.) e destes serem no Reino Unido um investidor quase
tão importante como toda a U.E. (39.7% para 45.6%), Thatcher defende a
razoabilidade do seu país assumir a N.A.F.T.A. como parceiro comercial
preferencial a expensas da sua actual relação com a U.E. O futuro da Ásia ou fazer florescer potências que contrabalancem a
China Thatcher não tem dúvidas de que a China emergirá
no século XXI como uma grande potência, mas considera que o processo será
atribulado e que o Ocidente, mais que deixar-se intimidar por essa
emergência, deve tentar influenciar positivamente a evolução da sociedade
chinesa. Salvaguardadas as diferenças, há paralelos com a Rússia que podem
ser traçados: a China tem também as forças de mercado a “soltarem-se”, mas
num meio dominado por um aparelho de Estado tirânico, arbitrário e, consequentemente,
corrupto, que instrumentaliza mais do que permite o são crescimento da
iniciativa privada; a China tem também ambições militares e políticas que a
tornam uma agressora potencial (e perigosa para o Ocidente e para a segurança
global). Thatcher lembra que o comunismo permanece na China e que isso deve
impedir as potências ocidentais de a tratarem como um país “normal”: mais uma
vez, a autora defende que deve ser feita pressão junto dos dirigentes
chineses relativamente aos casos mais gritantes de violações dos direitos
humanos, aconselhando que a melhor forma de o fazer é embaraçá-los
publicamente com esses assuntos, mais do que embarcar numa estratégia
maximalista e de “cruzada” – a este propósito, Thatcher relata o que ela
própria fez em 1991 numa conversa com Li Peng (pp. 155-159). A autora vê a
questão de Taiwan deste ponto de vista, defendendo ser um erro ceder-se à
chantagem retórica de Pequim, que pretende apresentá-la como um “assunto
interno” da China; para Thatcher, é vital para a estabilidade da região e
para os interesses americanos que Taiwan seja efectivamente defendida de uma
agressão de Pequim. Diz ainda que Taiwan, mais que um problema, é um exemplo
muito relevante de como um regime democrático pode funcionar no ambiente
cultural chinês, sendo por isso que Pequim teme tanto o seu sucesso; e é
precisamente por isso que, no seu entender, se deve permitir a Taiwan
preservar a sua experiência autónoma, que é um laboratório para o futuro da
própria China continental. A autora coloca, enfim, a questão chinesa no
contexto dos problemas asiáticos, já que considera que a estratégia essencial
de conter as ambições de Pequim passa necessariamente pela emergência e
consolidação de novas potências na Ásia: o Japão, os denominados “tigres
asiáticos” e a Índia (que, em termos demográficos, é o único país que ombreia
com a China). Para tanto, tornam-se fundamentais a superação da crise
económica asiática, o apoio a um maior protagonismo militar do Japão e a
remoção das barreiras que têm impedido a economia do gigante indiano de
crescer mais rapidamente. Como Thatcher salienta, o caso de Singapura
demonstra que a riqueza de um país não depende dos seus recursos naturais,
mas sim das pessoas e das possibilidades que o governo lhes dá de deixarem os
seus talentos florescer (apesar de admiradora de Lee Kuan Yew, Thatcher
discorda da teoria por ele cunhada dos asian
values, considerando que o sucesso da cidade-estado e dos outros “tigres”
se deveu às características universais do “capitalismo” e não a um composto
nebuloso e historicamente duvidoso de “valores asiáticos”). Ora, acontece que
a Índia só muito recente e timidamente iniciou a reforma da armadura
proteccionista e regulamentadora de que se revestiu após a independência,
quando se lançou na perseguição de um quimérico modelo de auto-suficiência
planificada; para Thatcher é muito importante que as reformas económicas já
iniciadas se aprofundem, de modo a aproximar rapidamente a Índia do sucesso
dos “tigres asiáticos”, o que lhe permitiria também reforçar a reivindicação
de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da O.N.U. (o que é
inequivocamente apoiado por Thatcher). De facto, o Japão e os “tigres
asiáticos” puderam colher muitos frutos de uma economia em boa medida
liberal, mas a baronesa lembra que esta sempre coabitou perigosamente com a
promiscuidade triangular entre grandes empresas, bancos e governo,
responsável por grandes défices públicos que armadilharam o sistema
financeiro e acabaram por precipitar, há dez anos, as actuais crises
financeiras da Tailândia, das Filipinas, da Malásia, da Coreia do Sul e do
Japão. Sobre o Japão, Thatcher diz que devem evitar-se as simplificações: na
verdade, nunca foi tão bem sucedido como se dizia nem é agora tão mal
sucedido como se afirma. Na sua óptica, o sucesso económico do Japão deveu-se
ao “capitalismo” sem adjectivos (“japonês”, “asiático”, etc.) e às técnicas
de gestão empresarial japonesa que ajudaram o crescimento do pós-guerra mas
que têm sido adoptadas com sucesso pelos concorrentes do Japão (tal como este
adoptou a tecnologia dos seus concorrentes ocidentais); para Thatcher, a
mudança cultural da nova geração de Japoneses pode ainda produzir grandes (e
agradáveis) surpresas e a reestruturação do sistema financeiro deve
prosseguir, de modo a substituir os tradicionais incentivos fiscais e
subsídios (que engordam a dívida pública e criam “elefantes brancos”) por
cortes de impostos que incentivam mais o crescimento e a retoma do consumo.
Para que o Japão assuma plenamente o papel de principal parceiro asiático dos
E.U.A., além destas reformas económicas que despolitizem a sua economia e a
tornem menos vulnerável a crises como a dos anos 90, Thatcher apoia o reforço
militar e um maior protagonismo internacional dos Nipónicos – vital para contrabalançar
a China –, bem como a sua inclusão no escudo norte-americano de defesa contra
mísseis balísticos; porém, julga que seria excessivo tornar o Japão membro
permanente do Conselho de Segurança. Finalmente, Thatcher refere-se à
Indonésia, cuja economia foi outra vítima recente de excessiva politização,
para dizer que deve haver prudência na forma como se luta contra regimes como
o de Suharto sem pensar nas consequências da sua queda, já que os seus
sucessores não estão aparentemente a conseguir impedir o agravamento da crise
económica e da violência religiosa e secessionista (embora desaconselhe a
desagregação da república indonésia, Thatcher reconhece nas pp. 124-127 a
excepcionalidade de Timor Leste). Luís Aguiar Santos (consulte outros artigos do mesmo autor aqui) |