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Radicais e moderados, utópicos e realistas *
Por Luciano Amaral
Existe correntemente na
linguagem política em Portugal (e na Europa também, na verdade) uma peculiar
imprecisão de termos. Palavras como "liberal",
"conservador", "socialista" ou
"social-democrata" deixaram de ter sentido claro. Em parte, está
bem assim. Os grandes conceitos políticos têm e devem ter certa
maleabilidade, não havendo uma "via única" para o
"liberalismo" ou a "social-democracia". Mas mesmo
descontando esta maleabilidade, a imprecisão parece ter sido levada hoje a um
ponto que vai para além do aconselhável. O estado do vocabulário político
lembra um pouco o dos tempos finais da URSS, em que eram apresentados como
"conservadores" aqueles apostados na sobrevivência e aprofundamento
do "comunismo" e como "revolucionários" os que pretendiam
uma transformação "capitalista".
Quatro termos muito utilizados têm conhecido esta degradação do seu valor
substancial "radical", "moderado", "utópico" e
"realista".
Aqueles que persistem em salvar o "modelo social português" (a
nossa versão, remediada, do europeu) são louvados como "realistas",
porque não vão além de um certo reformismo incrementalista,
e como "moderados", porque não pretendem uma transformação política
e social drástica para o País. Já os que pretendem reformar de forma
aprofundada o dito "modelo social", no sentido de introduzir
elementos de escolha individual e liberdade institucional, social e económica
são vistos como "radicais", alimentados por uma visão "utópica"
para Portugal.
Curiosamente, muitos ditos "conservadores" alinham nesta dança com
os presuntivos "moderados" e "realistas", no que acabam
por se tornar parceiros de "socialistas" e
"sociais-democratas" - coisa de pôr
genuínos conservadores, como Burke e Oakeshott, a girar freneticamente nos túmulos.
Mas de que lado está efectivamente a "moderação" e o
"realismo" nesta história? Convém perceber o que defendem os que
defendem o "modelo social português". Desde logo, defendem que o
monopolizador da violência legítima (i.e., o Estado) utilize essa violência
para proceder, através da fiscalidade e das decisões administrativas, a um exer- cício
de sistemática expropriação da riqueza individual e sua redis-
tribuição através da "prestação de
serviços" - seguros de desempre- go, velhice e saúde, e oferta de emprego (o funcionalismo
público) e de ensino.
Ora, o que é isto senão um projecto "radical"? Afinal, trata-se de
um projecto que não respeita a liberdade de escolha dos indivíduos nalguns
dos mais importantes aspectos da sua vida; de um projecto que utiliza a
autoridade do Estado para, através da fiscalidade (essa instância suprema do
arbítrio estatal), retirar aos indivíduos a riqueza gerada no seu normal trem
de vida. Mais, o que é isto senão um projecto "utópico"? Já todos
percebemos que retirar parcelas crescentes da riqueza individual para
alimentar esta maquinaria fantástica é inviável o emprego público mais os
sistemas de saúde e de segurança social estão a con- duzir o País à falência
e não são os cortes cegos (muito do agrado dos três últimos governos,
incluindo o actual) nem a persistência, com alterações cosméticas, nos
métodos correntes que vão inverter o caminho. Quem é "utópico"
aqui? Os que pretendem continuar neste trilho suicidário, ou os que, precisamente
de forma muito realista, pretendem saltar dele?
Onde está a moderação daqueles que pretendem continuar (de forma
"utópica" e "irrealista", repita-se) a patrocinar este
projecto quase autoritário de engenharia social? Porque são apelidados de
"radicais" os que pretendem o regresso a governos limitados, que
utilizem o seu poder de forma discreta, no sentido da protecção dos bens e da
escolha dos indivíduos, e não no da sua expropriação e direcção das suas
acções? Enganam-se os "conservadores" frustes,
que entendem o "conservadorismo" apenas
como a "conservação do que existe". O conservadorismo
deveria começar por avaliar se vale ou não a pena conservar uma determinada
ordem. E se não vale, deveria ser o primeiro a querer transformá-la, para
criar uma outra ordem que, essa sim, valesse a pena
conservar. Apenas os conservadores mais toscos poderão meramente querer
conservar "o que existe", quando "o que existe" é um
Estado tentacular, activista, em permanente interferência com as escolhas de
vida dos cidadãos e apostado numa engenharia social de base
"radical". Porque a verdade é que ser-se conservador consiste
sobretudo na preservação de métodos políticos favoráveis à limitação de
poderes, e não à sua expansão, mesmo se a coberto das melhores razões "sociais".
Numa idade democrática, o liberalismo é o único refúgio dos verdadeiros
conservadores, sendo também ele que garante a ordem política mais
"moderada" e "realista" que é passível de combinação com
a democracia. "Radical" e "utópico" é o estado de coisas
em que vivemos, cuja funcionalidade, precisamente por isso, não poderá
sobreviver por muito mais tempo.
* Originalmente publicado no Diário de Notícias
Maio de 2006
Luciano Amaral
Causa Liberal
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