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Cheiro a Weimar*
Por Luciano Amaral
Há dois meses, um furacão trouxe para o prime time televisivo imagens dramáticas do lado menos
feliz da sociedade americana a pobreza de certos bairros negros. Correu então
uma incontida alegria pela pena dos comentadores, que se empanturraram numa
verdadeira orgia de bordoada na América, no neoliberalismo
selvagem e, claro, no compêndio dos dois, o Presidente Bush.
Agora, não foi preciso um furacão para mostrar o lado mais pobre e mais podre
da sociedade francesa, mas ainda não se viu a mesma desenvoltura para sovar a
Europa e o modelo social europeu. Haveria até bastantes razões para isso,
usando o mesmo elevado padrão intelectual, já que (embora ninguém tenha
falado nisso) também na Dinamarca (na Escandinávia das delícias da nossa
classe política) os subúrbios de Ahrus conheceram
episódios parecidos, tendo mesmo surgido carros queimados em Bruxelas e em
três cidades alemãs.
Em vez da metralha deste tipo de disparates, aquilo que apareceu foi uma espécie
de inútil gongorismo sociológico, misturado com umas suavidades sobre
"desafios para o futuro", para além da tentativa apatetada de
encontrar um Bush local, na pessoa de Nicolas Sarkozy.
Num continente onde o único instrumento intelectual que tem sido desenvolvido
consiste no ódio à América e ao neoliberalismo, não
admira a pobreza analítica e a incapacidade para perceber a tragédia na
altura em que ela bate à nossa própria porta. Quando não se pode atirar a
matar a Bush, não resta nada.
Vale a pena, no entanto, tentar perceber um pouco melhor aquilo que se passa.
Só que tentar percebê-lo requer lidar com temas que ninguém na Europa quer
discutir a sério o comportamento demográfico dos europeus, a imigração, o
Estado Social e o radicalismo islâmico
Na origem, está o comportamento demográfico, que actualmente não garante a
substituição de gerações na Europa. Muitas vezes não se repara como é
estranha a vaga de imigração para o continente.
A imigração em geral não depende apenas da existência de níveis de vida muito
diferentes entre dois territórios. Depende sobretudo da existência de postos
de trabalho por preencher no território que é mais rico. As grandes vagas de
(e)imigração dos séculos XIX e XX fizeram-se para países com um pujante
crescimento económico.
Ora, as economias europeias pouco crescem. O que atrai os imigrantes à Europa
é a escassez de mão-de-obra para alimentar o Estado Social, que precisa deles
para manter os subsídios de desemprego e as pensões de reforma.·
É notável a perversidade de todo o mecanismo os europeus recusam-se a entrar
em certas profissões desqualificadas, a isso preferindo o desemprego e o
subsídio que ele garante.
Mas como elas têm de ser desempenhadas, os imigrantes são convidados a
fazê-lo. Aceitam condições de trabalho e remunerações intoleráveis para um
europeu original. Já os seus filhos recusam o mesmo destino. Não só as suas
expectativas são mais elevadas, como, sendo cidadãos plenos, recorrem
livremente às esmolas do welfare state.
É assim oferecido à segunda geração um incentivo ao desemprego. E deste modo
se alimenta a elevada taxa de desemprego que caracteriza as sociedades
europeias, a qual tem de ser coberta por novos imigrantes, que voltam a
aceitar horríveis condições laborais. Afinal, aquele que é suposto ser o
modelo de protecção social mais sofisticado não dispensa a existência de uma
subclasse permanente, sem plenos direitos económicos, cívicos e políticos.
Incapazes de lhes oferecerem oportunidades para além do perpétuo subsídio de
desemprego, os países europeus remetem os filhos de imigrantes para aldeias
etnográficas, onde, em nome do multiculturalismo,
os deixam prosseguir hábitos tantas vezes contrários à lei e à moral
tradicionais europeias.
Onde a imigração islâmica predomina, abundam os casamentos forçados, a
poligamia, a violação iniciática e a excisão vaginal. Independentemente de,
poucos metros ao lado, vigorar o princípio da total emancipação feminina.
Não vale a pena tapar o sol com a peneira e não reconhecer que os amotinados
de França são de origem islâmica, muitos sob o efeito das prédicas dos imãs
locais, que destilam o mais puro ódio contra a sociedade ocidental decadente.
Este é o mesmo caldo de cultura que nos deu o assassino de Theo van Gogh
e os bombistas do 7 de Julho.
E agora, depois de 15 dias de manifestação de ódio dos filhos de imigrantes
pela sociedade que acolheu os seus pais, o que vai fazer a França
tradicional? A França branca e dos imigrantes de primeira geração (onde, de
resto, se encontra grande número de votantes em Le Pen)?
Atrevo-me a sugerir (esperando, porém, que um milagre aconteça) que fará uma
de duas coisas (ou as duas juntas) igualmente trágicas ou demonstrar uma
compreensão ainda maior pela desgraça dos "jovens rebeldes", assim
contribuindo para aprofundar a deliquescência da autoridade republicana, ou
afirmar um ódio radical ao "estrangeiro". Parece uma situação sem
saída? Parece. Mas há circunstâncias em que assim é. Também a fraqueza da
Alemanha de Weimar não tinha uma solução feliz.
Novembro de 2005
Luciano Amaral
*originalmente publicado no Diário de Notícias
Causa Liberal
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