Em Defesa da Taxa Única de Tributação

Por uma aplicação mais justa, transparente e democrática da política fiscal

 

Por Carlos Novais

 

 

Chega-nos a notícia de que vários países de leste, entre os quais a Rússia de Putin, adoptaram ou preparam-se para adoptar, uma taxa única de imposto sobre o rendimento (no caso Russo, já implementado e de apenas 13%!). Afundados em administrações fiscais inoperantes, códigos incompreensíveis e um ambiente geral de “não pagamos”, estes países tomaram a dianteira em termos de racionalização, e até de justiça, na cobrança do imposto sobre rendimento, através da simplificação e do fim da aplicação do princípio da progressividade. Com isso, conseguiram a subida da receita fiscal e um consenso alargado pela declaração dos seus rendimentos.

Este é um feito único e uma notícia que deve chamar a atenção a liberais e conservadores, uma vez que se trata do imposto que mais invade a privacidade das famílias (o imposto sobre sucessões, por seu lado, é o que mais contribui para o fim das famílias como entidades sociais que subsistem ao longo de gerações, uma vez que dificulta ou impossibilita a transmissão e preservação do património acumulado às gerações seguintes – a isto temos ainda de juntar a proibição, creio que iniciada por Napoleão, da atribuição da herança ao filho varão). O imposto sobre o rendimento lança também a suspeita permanente sobre os mais produtivos e cria obstáculos à criação de riqueza ao dificultar a poupança e acumulação de capital, única forma de a produtividade aumentar, que diga-se, beneficia em especial o trabalho mais indiferenciado.

O imposto progressivo é um exemplo de discriminação social e um resquício dos sonhos utópicos e coercivos da igualdade de resultados. Seria de esperar, neste novo século, que as regras democráticas incluíssem formas de protecção de minorias. Mas o que assistimos é a um status quo que legitima que uma maioria constituída pelos rendimentos mais baixos possa discriminar sobre os escalões seguintes. Usando a redução ao absurdo não tão absurdo quanto isso, é o chamado efeito dos 51% com rendimentos mais baixos que se isentam do pagamento de impostos e decidem colectar os 49% mais produtivos (a nossa Constituição, aliás, nem o permite; a interpretação do que está escrito é que diz que sim, mas esse é outro assunto). Apenas deve ser lícito
decidir em comum efeitos que a todos se aplicam de igual forma. A existir alguma excepção que tenha uma boa justificação, essa excepção é a isenção da taxa única nos rendimentos menores. Discriminar sucessivamente sobre minorias cada vez mais reduzidas com pouco poder para influenciar decisões maioritárias cujos efeitos se produzem sobre outros, é que não parece ter qualquer aderência ética e muito faz para desacreditar a regra da maioria.

Para onde devemos então encaminhar o imposto sobre rendimento? Para isenção nos rendimentos mais baixos, maior do que a actual, e para a aplicação de uma taxa única que o bom senso indique como razoável, para os rendimentos superiores. Desta forma, é mais tolerável o efeito da progressividade, porque apenas o instituímos entre os que estão isentos e os rendimentos sujeitos. Desta forma, minimizamos o conhecido efeito do “não me compensa trabalhar mais, por causa do pagamento adicional de impostos”, ou ainda “se trabalhar mais, vou ter de optimizar as minhas declarações fiscais”.

Pessoalmente, tenho até uma sugestão mais abrangente. A criação de uma taxa de imposto único no domínio do IRS, IRC e IVA, de forma a tornar mais simples e mais transparentes as opções políticas fiscais evitando as
tradicionais descidas de um imposto à custa das inevitáveis subidas do outro. Por exemplo, um IRS de 20%, IRC de 20% e IVA de 20%. Talvez então possa o eleitorado decidir com clareza entre diferentes plataformas
eleitorais. E (um pouco de ironia...) dado que estas costumam ser radicalmente diferenciadas, podíamos então esperar uma batalha eleitoral entre 18% e 19%!

É uma proposta que se baseia na experiência prática passada, o que, pessoalmente, é mais válido do que quaisquer argumentos de incompreensível complexidade que os cientistas dessa vasta ciência oculta – a fiscalidade – possam opor. Nós, os comuns mortais, devemos opor-nos à ideia de que as propostas constantes de reengenharia fiscal têm qualquer efeito prático, ou antes, que exista causa e efeito em operações de mera cosmética, com subidas e descidas simultâneas ou faseadas no tempo, de diferentes tipos de impostos.
O que é realmente determinante é o montante total de impostos cobrados, porque todo o tipo de impostos acaba por afectar o conjunto da actividade económica, transmitindo-se umas vezes de forma mais directa, outras indirectamente, mas sendo em última análise um custo que é transmitido uniformemente a toda a população. E se assim é, vamos então tornar essa decisão mais transparente.

Que mais variáveis continuariam a existir, no que respeita a estes impostos? O nível de isenção em cada um deles, o qual pode e deve existir. Mesmo no domínio do IRC, é aconselhável um escalão de isenção que permita aos negócios mais pequenos apurarem e acumularem lucros (na verdade os lucros das empresas são a mais eficaz forma de poupança e investimento), o que permitiria aos projectos válidos crescerem de forma mais acelerada do que hoje. Quanto àquilo que uns chamam de efeito regressivo do IVA seria, para quem acha este argumento válido, compensado pela maior isenção no IRS.


Esta proposta insere-se numa estratégia de contribuir para que o processo de decisão colectivo sobre a política fiscal obedeça a alguns princípios (mais do que a política em si) de justiça e de transparência. Seria um passo
importante, que permitiria debater com menos ruído a necessidade do abaixamento geral do nível de impostos e responsabilizar aqueles que propõem o seu aumento.

 

 

 

Junho de 2003

 

Carlos Novais

 

(consulte outros artigos do mesmo autor aqui)

 

Causa Liberal