As novas ideias de uma certa e singular velha direita

 

 

por Carlos de Jesus Fernandes

 

 

Revolt from the Heartland. The Struggle for an Authentic Conservatism, por Joseph Scotchie (135 pags., Transaction Publishers, New Brunswick, NJ, EUA, 2002).

 

 

Depois de Paleoconservatives. New Voices of the Old Right, Joseph Scotchie volta à carga produzindo mais um livro sobre a corrente da Old Right e sobre os paleoconservatives, ambos com raízes na fase anterior à Segunda Guerra Mundial.

 

Através de uma introdução e de oito capítulos (Reading America; The First Old Right; Cold War Conservatism; The Chapel Hill Conspiracy; Suicide of the West – Again; Against American Empire; What the Old Right is For; e The Survival Question) Scotchie traça com vigor as peripécias, as inspirações, as personalidades, as ideias, as organizações e os factos mais marcantes desta “nova” Old Right, em que são personalidades marcantes e activas, nomeadamente, devido à sua intervenção nos media e dos seus escritos, Patrick Buchanan, Clyde Wilson (entre outras coisas o editor dos John Calhoun’s Papers), Thomas Fleming (editor da revista Chronicles e responsável pelo Rockford Institute), Samuel Francis, Chilton Williamson, Joe Sobran, Charles Reese e mais recentemente Llewellyn H. Rockwell, Jr. e  os seus amigos paleolibertarians do Mises Institute, e  que foi “beber” à influência moral de Murray Rothbard (um paleolibertarian no meio de paleoconservatives), Russel Kirk ou por M.E.Bradford, e ao contributo histórico de Garet Garret, John T. Flynn, Mencken, e aos Southern Agrarians da Vanderbilt University de Nashville, de Donald Davidson e outros, que corporizaram a chamada “primeira Old Right”, os seus contributos e teses mais marcantes.

 

O livro lê-se num trago e um dos seus aspectos mais interessantes é a descrição da coligação e o relacionamento entre as duas qualidades de paleo: conservadores e libertários.

 

Com efeito, nem tudo tem unido os pensadores da Old Right. Se todos  concordam  em  imigração,  impostos,  questões sociais ou política externa, se todos não são globalistas e se opõem à NAFTA, GATT, OMC, FMI e ONU e a um mundo unitário, quando se trata de comércio entramos no reino da discórdia, uma vez que os libertários do Mises Institute, na esteira de um dos seus grandes inspiradores Rothbard,   defendem fortemente a ideia de free trade e mercados livres, contrariando aqui, por exemplo, Pat Buchanan.

 

Aliás, a este propósito, Scotchie a certo passo diz que Rothbard tolerava a apostasia de Buchanan sobre comércio livre, argumentando com os seus colegas cépticos que a qualquer homem era permitido uma falha e tratando-se de Pat Buchanan a sua falha era a oposição ao  free trade.

 

Buchanan de facto era o seu homem, o mais anti-estatista dos candidatos presidenciais, mas também o único capaz de restaurar a herança republicana americana.

 

Rothbard  tinha grandes esperanças numa Old Right rejuvenescida para o anos 90. Com Chronicles como a publicação mensal intelectual, Human Events como semanário e Buchanan como o seu líder carismático e articulado, a Old Right teria o caminho imparável  para  revolucionar a política norte-americana,  mandando para a poeira o círculo  de William Buckley, Jr. e os neo-conservadores. Todavia, depois do desaparecimento de Rothbard em Dezembro de 1994, o John Randolph Club – que tinha um papel de actuação/discussão conjunta entre os paleo das duas sensibilidades – definhou. Na sua reunião de 1996 o seguidor de Rothbard, Hans–Herman Hoppe, da Universidade do Nevada, desferiu uma crítica ao proteccionismo comercial de Buchanan, aproveitando para criticar excertos dos escritos de Sam Francis, e com isso significando a saída do contingente do Mises Institute da coligação paleo.

 

Mas não havia um corte claro entre as duas sensibilidades. Os libertários continuavam a escrever para Chronicles, o Mises Institute organizou, em meados dos anos 90, várias conferências de que resultaram textos e publicações redigidos ao estilo distintivo da Old Right – por exemplo, o volume de The Costs of War, publicado em 1997 e um dos mais ambiciosos projectos da Old Right, contendo textos entre outros de Murray Rothbard, Sam Francis, Allan Carlson, Joe Sobran e Clyde Wilson.

 

Em continuação deste espírito, em 1998, organizou um seminário sobre as presidências americanas, devastando as de Lincoln, Wilson, FDR, Truman e LBJ., de que resultou mais um imponente volume.

 

A 27 de Dezembro de 1997 um artigo no Christian Science Monitor nitidamente delineou a era nova em que se entrava, em que a política norte-americana não era mais um quadro de liberais[1] versus conservadores, mas antes entre globalistas versus nacionalistas, publicando uma foto a acompanhar o artigo, de Bill Clinton e Newt Gingrich, como líderes globalistas dos anos 90.

 

E na verdade o paleoconservatism representa um misto de nacionalismo – embora um nacionalismo  sem o militantismo  da procura do alargamento do poder federal -  e de regionalismo, tão defendido pelos Southern Agrarians – como o sangue da vida da Nação -  com a oposição ao comércio livre significando, do seu ponto de vista, o evitar da partida de postos de trabalho – nos EUA com mão de obra bem paga -  para outras paragens.

 

De acordo com tal posição, o regionalismo é a via que faz sentido indo ao arrepio da vida de uma massa americana continentalizada, representando a celebração da diversidade. Quando Donald Davidson, nos anos 30, escreveu  sobre a  “diversidade da América” pretendia referir-se às culturas regionais duradouras no tempo na Nova Inglaterra, no Sul, no Midwest e nos Estados do Oeste e não a ideologias baseadas na raça, etnia, língua ou costumes. A 10.ª Emenda da Constituição serviria para possibilitar o tratamento de questões sociais controversas, deixando aos Estados e às localidades decidir sobre o aborto, oração nas escolas, porte de arma, pornografia e outras matérias onde cultura e política colidissem.

 

A Old Right, nas palavras de Scotchie, pretende  construir a

 

middle America – based cultural movement that will force politicians to dance to a

 populist tune”[2].

 

Trata-se de construir e valorizar uma América das pequenas cidades e vilas, uma América das famílias, uma América das regiões e das suas culturas, uma América do tradicionalismo e em que não há lugar para a dominância do Estado Federal e obviamente do Império, tão atacados por esta espécie de D.Quixotes norte-americanos do nosso tempo.

 

Revolt from the Heartland. The Struggle for an Authentic Conservatism é um livro delicioso sobre a história de um tipo muito especial de facção minoritária de conservadores norte-americanos – e de um punhado de libertários, seus aliados, também de um tipo muito especial -  e que para os liberais clássicos portugueses poderá servir para abrir novos caminhos e para  retirar ideias sobre enraizamento, localismo e valorização da tradição. 

 

Causa Liberal



[1] Liberais no sentido norte-americano do termo, i.e,  uma espécie de sociais-democratas, portanto situados à esquerda do espectro político.

[2] P.101