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Os
liberais esquecidos – os aristocratas franceses burkeanos
no turbilhão da Revolução Francesa de 1789 Por Carlos de Jesus Fernandes 1. Introdução O filme de Eric Rohmer sobre a Revolução
Francesa de 1789, A inglesa e o Duque
ao transmitir-nos a sua visão contra-revolucionária – uma outra forma não
oficial de ver os acontecimentos que marcaram a História até aos nossos dias
– conduz-nos pelas angústias de uma aristocracia francesa confrontada e
angustiada com o seu destino e dividida entre pragmáticos – que defendiam uma
saída airosa no âmbito da “legitimidade” revolucionária – e os “puros”
contra-revolucionários, para os quais a Revolução constituía algo de
abominável e de funesto. Entre as duas
posições encontramos posicionamentos de diverso matiz, com nuances várias,
entre as quais o do denominado liberalismo
aristocrático, brandido por um grupo de liberais, de perfil anglófilo, que actuavam no seio da “direita” na
Assembleia Constituinte. É sobre este
liberalismo defendido por uma parte minoritária da aristocracia e esquecido,
diríamos melhor, banido da História do liberalismo pelas próprias gerações
futuras de historiadores liberais – devido, sem dúvida, ao facto de aquele
liberalismo encerrar um pecado original,
ao ser simultaneamente de corte aristocrático e portanto elitista e profundamente
contra-revolucionário – que pretendemos falar, por forma a
fazer sobre ele alguma luz. 2. O liberalismo aristocrático Na Assembleia Constituinte saída da
Revolução Francesa, de 1789 a 1791, dois mundos, um aristocrático e outro,
democrático, afrontam-se. Confrontados com os princípios de 1789, os
aristocratas construíram uma doutrina contra-revolucionária, inspirada em
diversas tradições e com fins diversos. No interior do grupo aristocrata é
preciso, pelo menos, distinguir duas grandes tendências, a primeira,
denominada pura, é a herdeira de
uma síntese confusa entre o determinismo histórico de Boulainvilliers
e o conservadorismo integral, matizado de alguns
contributos dos Pais da Igreja e de Bossuet.
Anuncia ao longe o pensamento teocrático da Restauração e o
anti-parlamentarismo de todos os contra-revolucionários franceses até Maurras. A segunda corrente, liberal mas não
monárquica – monarchien - herdeira
do liberalismo aristocrático dos monarchomaques
até Montesquieu, ocupa um lugar singular na
história do liberalismo francês pela ambiguidade da sua doutrina, tanto
liberal, como contra-revolucionária, que anuncia Edmund
Burke. É esta segunda corrente, minoritária no
seio do grande grupo aristocrata, que aglutina os espíritos anglófilos como Cazalès e os
seus amigos, Montlosier, Rully,
des Roys, Puisaye, todos tomados de liberdade, mas furiosamente
ligados a todos os corpos intermédios (nobreza, Parlamento, clero...), assim
como aos seus privilégios honoríficos. O seu programa é politicamente
inovador (são partidários da monarquia à inglesa), mas socialmente
conservador, o que os distingue dos puros
aristocratas -
hostis à Constituição inglesa -
e dos monarchiens
- hostis às ordens do Antigo Regime. Situados entre estas tradições
contraditórias, estes deputados formam a charneira francesa esquecida, entre Montesquieu e Burke. Herdeiros do espírito do século, desta anglomania
posta em moda pelo Esprit des Lois, Cazalès e Montlosier – que retomarão as suas formulações – sonham
com o estabelecimento em França de uma monarquia à inglesa, com um rei
dispondo de todo o poder executivo e um poder legislativo exercido por duas
Câmaras, uma baixa e
outra dos Pares, dispondo o rei de um último e definitivo poder de impedir,
pelo seu veto, os projectos da Assembleia, salvo em matéria fiscal. Não existe, aos seus olhos, melhor regime
que “esta admirável Constituição inglesa” (Cazalès),
onde o rei é uma autoridade forte “hereditária”, “inviolável” e onde a
sabedoria de uma Câmara alta modera os ardores da Câmara dos Comuns. A sua anglomania resume
a essência da sua filosofia política virada para a liberdade - “O povo francês é pouco sábio, pelo que não precisa da
liberdade; e eu digo, precisa da liberdade para que se torne sábio” (Montlosier). Mas o seu liberalismo vai afastar-se
radicalmente do anunciado pelos homens de 1789. Com efeito, ao mesmo tempo, estes
aristocratas são também os herdeiros directos da corrente conservadora,
aristocrática e determinista que, desde os monarchomaques até Montesquieu
(passando por Boulainvilliers ou Saint-Simon) prega o retorno à monarquia primitiva da
França herdada dos Francos. Cazalès resumiu bem o
espírito deste determinismo histórico:
“É impensável que os legisladores sábios não concordem que é uma grande
vantagem poder ancorar as leis novas nas antigas e de dar, por este meio às
novas leis o respeito que só a mão do tempo pode inspirar”. Como conciliar este determinismo com a sua anglomania? A
forma como o farão constitui a originalidade destes herdeiros do liberalismo aristocrático. Para estes deputados conservadores, a
instauração de uma monarquia à inglesa não seria uma criação, mas, pelo contrário, uma restauração da monarquia dos tempos feudais. Num texto pouco
conhecido, mas essencial, Montlosier exporá esta
tese muito específica: “A Constituição de Inglaterra e uma parte
dos seus usos e das suas leis não são outra coisa que a própria Constituição
e usos e leis de França. Não é preciso ser hábil para saber que quando
Guilherme, o Conquistador, tomou a Inglaterra, levou consigo com todo o seu rigor
a instituição da feudalidade. Não é preciso ser
hábil para saber que a instituição do pariado, de que, sobretudo, se trata aqui, é bem mais
antiga em França do que em Inglaterra: não é assim, como se diz, um governo
estrangeiro que pretendo levar para França, pois que é o próprio governo de
França que passou para Inglaterra”. Este texto é muito mais profundo do que
parece. Mostra a vontade real de um aristocrata como Montlosier
– e este afirma nas suas Memórias,
que assim também pensa o seu amigo Cazalès – em
estabelecer uma Constituição à inglesa em França. Com efeito, o elogio da
Inglaterra é um dos lugares comuns do século XVIII, que encontramos mesmo nos
discursos de certos puros como Maury. Mas para estes últimos não se trata de um exemplo a seguir,
considerando, pelo contrário, que esta Constituição notável só pode existir
em Inglaterra e que ela é, dirá de Maistre, uma excepção que, definitivamente, como
tal não se pode aplicar em França. Os liberais aristocratas não partilham
desta tese. O texto de Montlosier apresenta,
igualmente, um interesse particular, e que ilumina o debate político de 1789
sobre o bicameralismo e a controvérsia entre puros aristocratas, anglómanos monarchiens
e anglómanos aristocratas. A aproximação histórica
da demonstração de Montlosier, da qual, parece , aliás, consciente, é claramente reveladora da diferença que quer estabelecer – aos
olhos dos puros do seu grupo –
entre a sua iniciativa e a dos monarchiens.
Estes últimos, com Mounier à cabeça, consideram que
a França monárquica não tinha Constituição e propõem-se criar uma no exemplo
da Constituição inglesa. Um tal postulado não é aceitável para um aristocrata
como Montlosier que considera que a França tinha
uma Constituição. Admitir que se torna necessário criar uma
Constituição para estabelecer um sistema inglês, seria para Montlosier, reconhecer a iniciativa voluntarista da Revolução, que encarnavam os monarchiens – mesmo que
atirados para o lado direito da
Assembleia. Assim, justificando, mesmo que através de
uma ficção histórica, a ideia de uma restauração da monarquia à inglesa em
França – o que significa que a liberdade em França é histórica – os aristocratas anglómanos, como Montlosier, podem reivindicar, frente aos puros aristocratas que procuram
desacreditá-los, tratando-os de monarchiens, tanto o seu gosto pelas instituições da
liberdade, como a sua hostilidade pela Revolução – por toda e qualquer
Revolução, mesmo a dos monarchiens
de Maio/Junho de 1789. Em conclusão, para Montlosier
ou Cazalès, não se trata de procurar na História da
Idade Média uma arqueologia da monarquia feudal temperada, como pretendia Boulainvilliers, mas, pelo contrário, uma monarquia moderna à inglesa, bicameral. Entre Montlosier
e Mounier, Cazalès e Malouet, existe mais do que um ponto comum – para lá da
sua paixão pela monarquia inglesa – que, inclusive, reforça a sua amizade.
Apesar de tudo, os monarchiens pertencem ideologicamente ao campo
dos revolucionários. O seu combate do Verão de 1789 a favor da reunião das
três ordens – contra os aristocratas – é a prova; a sua concepção do mundo
político e social não é aristocrático,
mas já democrático. Todos os monarchiens,
encabeçados por Mounier, opõem-se à teoria dos
corpos intermédios ou intermediários de Montesquieu,
que é, pelo contrário, para os aristocratas, considerada como a peça fundamental , a garantia essencial da liberdade. Estes
últimos, fiéis a Montesquieu, consideram que a
nobreza, os parlamentos, o clero “são os diques potentes contra o despotismo
de todas as espécies” (Cazalès) e que a liberdade
depende da sua manutenção. Este tema clássico do liberalismo aristocrático é
desenvolvido por deputados
como Cazalès, Montlosier
ou Rully...Talvez não tenham muitos argumentos
novos a juntar à tese de Montesquieu, segundo a
qual como todo o poder tem tendência
para abusar da sua potência, são
necessários, numa monarquia, corpos intermédios – “canais médios por onde
escorra a potência” – que são
também muralhas sociais contra a
hegemonia do poder central. O interesse da sua argumentação reside no
facto de pela primeira vez terem de confrontar a sua concepção de liberdade
com os partidários de uma liberdade democrática, monarchiens à cabeça, hostis
aos privilégios e desejosos de sacrificar todos estes vestígios feudais no
altar da soberania popular. Diz Montlosier , “se desdenhando embaraçar-nos com a perfeição de uma
ordem nova, imaginássemos ter feito muito pela felicidade pública destruindo
os privilégios das províncias, as prerrogativas da nobreza e a autoridade dos
grandes corpos judiciários, quer dizer, todas as antigas limitações ao
despotismo, estaríamos a enganar-nos
muito, pois teríamos dada nascimento a um despotismo mais terrível que
o primeiro.” É bem evidente a nobreza o que estes
aristocratas defendem em primeiro lugar, esta “antiga nobreza que em todos os
tempos foi a força e a glória do Império francês”, dizia Cazalès,
e “conforme os ditos de Montesquieu, a honra é a criança e o pai.”
Sem ela , os indivíduos iguais uns aos outros
encontram-se desprovidos face ao poder cuja potência foi reforçada pela
abolição das ordens. “Falta de nobreza, falta de monarca, mas temos um
déspota”, lembram citando Montesquieu. 3. Os aliados franceses de Edmund Burke Estes liberais merecem o epíteto de aristocratas. As dificuldades de rang devidas ao
nascimento não os chocam, elas parecem-lhes mesmo tão naturais, que não sentem necessidade de se justificarem. Afirma Montlosier
“Por toda a parte verão sob uma forma ou sob uma outra, a aristocracia nascer
e crescer segundo leis imutáveis da natureza”. No entanto, estes anglómanos
condenavam os privilégios exorbitantes de que a nobreza francesa gozava sob a
monarquia dos Bourbons. Igualmente condenavam a
mentalidade desta mesma nobreza, isto é, o corpo de que eles
próprios faziam parte, que julgavam muito pouco aberto ao mérito e ao
comércio, ao invés da nobreza inglesa. É uma das críticas essenciais
formuladas por Cazalès, em 23 de Maio de 1789, para
justificar a abolição dos privilégios pecuniários da ordem. Este desejo de
abolição era partilhado por certos puros,
mas estes não pretendiam dar à nobreza francesa os traços da nobreza inglesa,
o que desejavam, pelo contrário, Cazalès e Montlosier, fiéis à lógica do seu plano anglómano. Para Montlosier, a
nobreza não devia ter nenhuma prerrogativa particular. A sua única distinção
seria o seu título e a sua capacidade para os títulos honoríficos, assim como
para ocupar os lugares da Câmara alta. Os herdeiros do liberalismo aristocrático e
de Montesquieu converteram-se em 1789 à monarquia
inglesa, deixando aos puros
aristocratas as pretensões nobiliárias furiosas de um Boulainviliers.
O aristocratismo de um Cazalès ou de um Montlosier não
é mais em 1789 do que a justificação à inglesa de um corpo intermédio
necessário à existência da liberdade. Conversão sincera ou táctica
oportunista? O carácter eminentemente aristocrático do seu liberalismo
torná-los-á sempre suspeitos para os homens de 1789 e desqualificá-los-á, em
seguida, aos olhos de toda a tradição liberal francesa do século XIX. Esta justificação
estranha do privilégio e da liberdade aparecerá como uma filosofia de bricolage e os
herdeiros da razão e da soberania popular não poderão aceitar esta filosofia impura. Com Cazalès
e Montlosier desaparece, assim, em França, esta
tradição, nascida no século XVI, associando estreitamente liberdade aos
privilégios e preocupando-se pouco com a ideia de soberania. Sobre este último ponto, estes liberais desenvolvem
uma concepção bastante original. Admitem que a soberania vem do povo mas não
julgam que esta questão mereça um grande interesse. Procurar se a soberania
vem do povo, da nação ou mesmo de Deus não é mais para eles do que uma questão metafísica, ou seja, sem interesse
para um legislador pragmático. Ao contrário, condenam os herdeiros da vulgata
de Rousseau, que acreditam poder resolver o mistério da liberdade através
desta teoria da soberania popular. A liberdade existiria quando o povo
participa directa ou indirectamente no poder e na elaboração da lei,
expressão da vontade geral. Os aristocratas recusam esta lógica demasiado
perfeita. Para eles, fiéis à tradição antiga do liberalismo, existe uma
antinomia radical entre a participação no poder e a liberdade – não é por
todos os cidadãos participarem no poder elegendo os seus deputados que tal os
impedirá de ser escravos. De acordo com os liberais aristocratas, que
aqui tocam num dos pontos essenciais da interrogação liberal, não é a fonte
do poder (soberania popular, nacional, divina...), mas a sua limitação (por
corpos intermédios numa monarquia) o que garante a liberdade. Os aristocratas
responsabilizam os patriotas por terem levado o povo nesta dramática confusão
entre liberdade e soberania. Este tema, próprio à tradição liberal anglo-saxónica de Burke a Hayek, deixa pressagiar uma filiação entre os aristocratas anglómanos franceses e o grande teórico liberal da contra-revolução, Edmund Burke. Publicadas em
Novembro de 1790, as célebres Reflexions on the French
Revolution de Burke
foram de imediato traduzidas e difundidas em França e terão inspirado
profundamente, no momento, os aristocratas franceses – tanto puros como liberais, cada um bebendo daquela obra à sua maneira. Todavia,
diga-se que os liberais aristocratas através dos seus discursos pronunciados
antes da publicação das Reflexions, se não influenciaram, pelo menos confortaram
as teses de Burke, ávido leitor dos debates da
Constituinte. Aliás, Burke reconhecerá a sua dívida.
Partilhando a desconfiança dos liberais anglómanos
franceses pelas tendências pouco liberais dos puros aristocratas e condenando com eles a actuação revolucionária dos monarchiens, Burke terá a sólida amizade de um Cazalès, que emigrado, viverá na casa de Burke, de Beaconsfield, amizade
que se consolidará na mesma ironia a respeito dos espíritos de Coblenz e na mesma
animosidade para com certos monarchiens (como Lally-Tollendal).
Toda a investigação de paternidade entre Burke e os
negros seria em vão e será
suficiente constatar – pois tal é pouco conhecido – que, dos dois lados da
Mancha, ao mesmo tempo, o mesmo grito liberal e anti-revolucionário nasceu
(os Essais
de Montlosier com acentos tão burkeanos
datam de Outubro de 1790...um mês antes das Reflexions). Como os liberais aristocratas franceses
exprimiram os seus princípios de uma maneira confusa, o que não aconteceu com Burke
– tratando-se do resultado de todo o pensamento desenvolvido na acção – a sua
doutrina, infelizmente, não teve o sucesso do britânico. Junho de 2005 Carlos de Jesus
Fernandes |