Hilaire Belloc (1870-1953) e o Estado Servil*

Por Carlos de Jesus Fernandes

 

Joseph-Pierre Hilaire Belloc nasceu em França, nos arredores de Paris, em La Celle-Saint-Cloud, a 27 de Julho de 1870, filho de um advogado francês casado com uma inglesa (Bessie Rayner Parkes), pertencente á alta burguesia, proveniente do protestantismo e convertida ao catolicismo e que foi muito activa nos primórdios do movimento feminino pró-sufrágio. A educação de Belloc foi quase inteiramente britânica, após a morte do pai, começando na Oratory School em Birmingham, uma escola católica e continuando no Balliol College, em Oxford, pela qual se licenciou em História, em 1894, com “the highest honors.  Casou com uma americana, Elodie Hogan, em 1896. Em 1902 tornou-se súbdito britânico, por naturalização, e durante alguns anos (1906-1910) foi membro do Parlamento Britânico, sob as cores do Partido Liberal. Em Oxford revelou-se um excelente orador e parece não haver grandes dúvidas de que poderia, se quisesse, ter tido uma carreira distinta na política. Mas acabou por escolher a escrita como o seu campo de acção e, na verdade, missão, e tornou-se um dos mais prolixos e diversificados - atendendo á diversidade de temáticas e de estilos - autores na longa história da literatura inglesa.

Quando morreu, a 16 de Julho de 1953, com quase 83 anos de idade, Belloc deixava para trás cerca de cem livros publicados e um vasto número de ensaios avulsos, artigos, recensões e discursos. Uma das mais controversas figuras do seu tempo, foi, também,  um dos mais respeitados e venerados, pela sua cultura, visão, vigor e brilhantez de estilo literário. Escreveu muito sobre História, incluindo uma História de Inglaterra em quatro volumes, e vários tratamentos histórico e biográficos da Revolução Francesa – um acontecimento com uma quase obsessiva influência no pensamento de Belloc -, mas os seus escritos historiográficos ocuparam relativamente  pequeno espaço na totalidade da sua bibliografia. Ele era crítico literário e analista social e político, um incessante polemista em muitas áreas, jornalista, novelista e sobretudo, poeta. Os seus poemas podem ser encontrados em muitas antologias de poesia inglesa, mas a sua primeira aventura neste campo foi a dos versos com non sense. O seu livro The Bad Child’s Book of Beasts, escrito enquanto se encontrava em Oxford, em 1896, gerou uma atenção imediata e é considerado nos nossos dias como um clássico.

É impossível entender qualquer dos escritos de Belloc sem começar por saber e  analisar o seu profundo - de toda uma vida -  Catolicismo Romano. Esta religião empreendeu um renascimento importante quase imediatamente após a Revolução Francesa, tanto na Europa Continental como na Inglaterra e nos Estados Unidos. É duvidoso que Belloc pudesse ter alguma vez alcançado a sua influência pessoal como católico libertário, se não fosse o trabalho e prestígio de homens do século XIX, seus antecessores, como Hugues-Félicité-Robert de Lamennais, Jean-Baptiste-Henri Lacordaire, Charles Forbes, Conde de Montalembert, John Henry Newman, Henry Edward Manning, John Emerich Dalberg Acton e muitos outros que  muito contribuiram para restaurar Roma como influência intelectual, mas também, cultural, social e económica, o que não acontecia, talvez, desde a Contra-Reforma.

Belloc é o Catolicismo não só daquelas figuras mencionadas antes, mas, igualmente, é o Catolicismo de Sir Thomas More, que, como é sabido, foi decapitado pela sua corajosa oposição ás medidas de política e de economia dos Tudor, as quais, Belloc, quatro séculos mais tarde, atacará com vigor, e em Utopia encontramos uma forma de sociedade não muito diferente da advogada por Belloc. A isto deve ser acrescentado que existe muito de comum entre as ideias sociais e económicas de Belloc e as contidas nas famosas encíclicas de Leão XIII, do século XIX.

No Catolicismo ardente de Belloc encontramos uma filosofia da História que celebra a Idade Média pela abolição da escravatura e do estatuto de servidão, pela vasta difusão da propriedade pelo povo, e por um significativo grau de liberdade individual, e pelo florescimento do ensino, das artes, filosofia e literatura que fez a Europa sair da Idade das Trevas. Belloc vê na Reforma e no capitalismo que se desenvolveu com aquela as causas do despotismo moderno e da insegurança económica que nos leva ao apelo do socialismo, colectivismo e evidentemente, que nos conduz àquilo a que apelidou de Estado de Servidão (the servile state). A liberdade definha em todas estas formas de Estado, mas tal só se tornou possível pela desesperança daqueles que foram convertidos em massas sem propriedade.

A visão de Belloc da História do Ocidente moderno é, sobretudo, uma visão de retrocesso e não de progresso; de declínio da vida, da liberdade e da segurança económica da Idade Média. Encontramos aqui um considerável grau de romantismo acerca deste período e por isto sofreu, no seu tempo,  muitos ataques, daqueles para quem o período medieval foi sobretudo um período de trevas, superstição e de tirania feudal e para quem o Renascimento e a Reforma constituíram os terrenos fertéis da liberdade e das Luzes. Diga-se, mesmo aceitando o romantismo de Belloc, que deve ser admitido que a posição de Belloc sobre o carácter social e económico da Idade Média e a sua visão dos efeitos reais do Renascimento e da Reforma, em certa medida, tem sido confirmadas pelos estudiosos em décadas recentes. Não estamos, hoje, tão prontos, como estavam muitos dos contemporâneos de Belloc, a associar o medievalismo com o Mal  e a modernidade com o Bem.

Não deve extrair-se do Catolicismo de Belloc  e da sua veneração pela Idade Média que fosse um conservador. Ele próprio declarava-se da esquerda do liberalismo. Admirava muito William Cobbett, o radical inglês do princípio do século XIX que, como ele,  lutou pelos direitos de propriedade das massas. Diga-se que as convicções políticas de Cobbett haviam sido formadas, nada menos, que pelo pensamento de Edmund Burke. Como sabemos, Burke, não apreciava os new dealers da finança, como  lhes chamava nas suas Reflections on the Revolution in France. Burke é presentemente considerado o pai do conservadorismo moderno, mas não é de esquecer que apoiou os colonos americanos e aqueles que na Índia e na Irlanda  desejavam repelir o domínio britânico. O seu ataque aos revolucionários franceses fundamentava-se na expropriação da propriedade da Igreja, guildas, e proprietários, e no crescimento do poder arbitrário em nome do Povo. Em suma, Burke, era um Tory  e o seu amor pela liberdade não admitia compromissos.

Em Belloc encontramos um forte elemento da filosofia de Burke, como a encontramos nos escritos de muitos,  no século XIX e no princípio do século XX, para quem a sua fundamental devoção à tradição e á continuidade não afastava a sua hostilidade a todas as formas de organização económica, religiosa ou política, em grande escala, nas quais a liberdade e a segurança dos indivíduos eram sacrificadas. Por exemplo, com excepção da   Católica Romana,  há muito pouco a separar a visão social e económica  de Belloc, da de Thomas Jefferson, que, igualmente, temia, em nome da liberdade individual, as grandes cidades, as grandes indústrias e as grandes burocracias, que via formando-se na Europa. Poder-se-ia pensar, pelo ataque que Belloc empreende contra o capitalismo, que o nosso autor era contra a liberdade económica, mas dever-se-á, antes, considerar que o seu objectivo maior era a mais vasta distribuição possível  pela população de indivíduos, de propriedade privada e de liberdade para usar a mesma propriedade conforme aprouvesse ao seu detentor. Alguns definirão capitalismo com o mercado livre precisamente nestes termos; mas, para Belloc capitalismo significava, em primeiro lugar, o tipo de expropriações monopolísticas que haviam acontecido com os primeiros reis Tudor e em segundo lugar, o crescimento de indústria em grande escala, de grandes corporações, de agregação de propriedade, que, com a conversão de tantos indivíduos em não-proprietários deixava-os a  estes bastante abertos  para os avanços do colectivismo e do estado servil. Mas se Belloc não gostava do capitalismo do seu tempo, abominava e temia o género de oposições e controlo do mesmo capitalismo, que constituíam a substância das reformas “liberais” de Lloyd George em Inglaterra, as quais formavam a armação do estado servil nas suas restrições à liberdade económica  individual.

O que Belloc incansavelmente advogava era um sistema político-económico a que chamava distributism ou distributivism (em português, distributismo, distributivismo ou distribucionismo), e que obtinha, também,  o concurso enérgico do brilhante Gilbert Keith Chesterton – cuja conversão ao Catolicismo Romano deveu muito à influência de Belloc – e de outros espíritos de estatura. Neste sistema todos possuiriam propriedade, seria auto-sustentado e mais livre e capaz de  defesa contra os esforços dos governos para diminuir a liberdade através da passagem de legislação coerciva em nome do humanitarismo e da segurança social. Distributismo significaria indivíduos livres e famílias livres, sem ninguém suportando outros, e com o estado adaptado ás necessidades da liberdade económica e não o inverso, que como vimos, Belloc via como a verdadeira substância da História de Inglaterra desde os Tudors.

Belloc, infelizmente, não nos diz como é que o distributismo pode ser desencadeado; como é que pode ser gerado por entre as opressões e arregimentações da vida política e económica moderna. Esta poderá ser uma das razões para o relativo insucesso da sua - e de Chesterton - defesa deste ideal. Mas a razão principal, cremos, liga-se claramente  à popularidade no princípio do século XX de doutrinas, como as de Sidney e Beatrice Webb e de muitos outros que foram capazes de fazer o socialismo fabiano e os seus numerosos offshoots tão atractivos para os intelectuais e para muitos dos líderes do emergente Partido Trabalhista de Inglaterra (Labour Party). A vantagem táctica gozada por cada uma das formas convencionais do socialismo, fabiano ou marxista, consistia no facto de estas, individual ou globalmente, serem construídas para realidades do Estado moderno, nacional, colectivista. É interessante aqui referir que ao lado do distributismo de Belloc, encontrávamos movimentos como o guild socialism ou o sindicalismo, que igualmente foram beber á Idade Média muitos dos seus valores e ideias, e que se opunham, ao contrário do socialismo convencional  e da social-democracia, ao Estado centralizado e colectivista. Mas estes movimentos tinham quase tão pouco sucesso para atrair seguidores como o distributismo. A dura realidade é que os primeiros cinquenta anos do século XX mostram que tudo o que Belloc nos havia mostrado ter começado com a Reforma – criação das massas não-proprietárias e do Estado nacional despótico – aconteceu. Quer nos totalitarismos da Rússia ou de outros países, quer nos socialismos democráticos da Suécia e Inglaterra ou nas economias planeadas como o New Deal americano, é o Estado, o Estado burocrático, quem largamente triunfou. Quem vimos nós, aparecer, em nome do comunismo, fascismo ou da economia planeada, foi o Estado manager. Este Estado assenta economicamente na capacidade para se apropriar da riqueza de um largo número  de pessoas para ter meios para apoiar e depois subordinar, o crescente número daqueles que num verdadeiro sentido são parasitas.

Um tal Estado é precisamente o Estado Servil a que se referia Belloc, nomeadamente em The Servile State,  um dos seus livros mais importantes e um daqueles livros que com visão, sabedoria, idealismo e capacidade para iluminar a realidade, fazem a diferença entre o vital e o efémero e defende-nos de crenças sofisticadas.

 

Fevereiro de 2005

Carlos de Jesus Fernandes

*originalmente publicado no semanário Domingo Liberal  

 

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