Sobre os Programas Eleitorais do PS e do PSD

por António Marques Mendes

 

Estas breves reflexões resultam de uma análise diagonal dos programas eleitorais apresentados pelos 2 partidos de governo Portugueses. Não pretendem ser uma análise exaustiva, nem tão pouco uma análise comparativa e, por essa razão, é mais um conjunto de pistas para a interpretação dos materiais que vos enviei atempadamente.

 

1.       Os textos sobre a erosão do envolvimento cívico dos cidadãos, diminuição de capital social, da cultura política democrática e quebra de confiança nas instituições sociais, cívicas  e políticas, sucederam-se nos últimos anos (Lipset 1990,1991; Rosenstone and Hansen 1993; Craig 1993; Putnam 1995; White 1995; Ingleheart 1997; Mishler and Rose 1997; Nye, Zelikow and King 1997; Pharr, Dalton and Putnam 2000; Norris 1999; Rothschild and Wingfield 2000; Diamond 2001). Parece relativamente claro que as alterações sentidas nos partidos e nos sistemas partidários europeus (LaPalombara, J. & Weiner 1966; Offerlé1987; Denni & Lecomte1999; Offe 1992; Katz & Mair 1994, 1995; Rebelo de Sousa 1992, 2000) reflectem, em larga medida, transformações profundas e sensíveis das estruturas económicas, sociais e ideológicas da Europa que têm nos indicadores apresentados no parágrafo anterior as suas manifestações sensíveis e visíveis.

2.       A renovação dos partidos políticos é fruto de uma série de alterações económicas e sociológicas particulares. A saber: fenómenos de globalização económica, cultural e social; mudanças do modelo socio-económico de vida dos indivíduos. A renovação explica-se, em grande medida, por uma progressiva erosão da cultura cívica dos cidadãos das sociedades democráticas ocidentais, por uma deplecção do capital social nessas mesmas comunidades e consequentes decréscimos dos níveis de confiança nas instituições socio-políticas tradicionais. Níveis progressivamente mais baixos de acesso à informação cívica e consequente redução dos níveis de conhecimento sobre matérias de âmbito societal, conduziram, também, a um fenómeno de desideologização dos cidadãos. Numa matriz socio-cultural de carácter pós-materialista são agora as “causas específicas” que podem ambicionar a congregar os cidadãos, já que, em termos gerais, houve uma alteração do carácter colectivo da política para um de tipo individual.

3.       Os Partidos Políticos enquanto organizações, por um lado, e veículos de socialização, educação e manifestação ideológica, por outro, têm vindo a assumir essas alterações socio-económicas (mais marcantes a partir dos anos 90 do século XX) via: i) alterações do seu modelo organizacional; ii) alteração dos seus modelos de actuação pública iii) alteração da sua formulação programática iv) alteração da produção ideológica v) ajustamentos das matrizes ideológicas de referência. Hoje o Partido Político com ambições governativas vocaciona-se para um imenso centro ideologicamente insípido, inodoro e incolor. Ao aumentar o seu mercado político os Partidos de Governo têm de reduzir a ambição ideológica dos seus programas (em termos filosóficos), transformar a sua doutrina em digestíveis chavões capazes de serem compreendidos por uma faixa de população cada vez menos politizada e cada vez mais preocupada com os problemas imediatos que tolhem a realização pessoal. Destes movimentos resultam Partidos “Catch-All” que têm de fazer apelos muito diversos, aparentemente incoerentes entre si, mas em que as reputações e personalidades dos líderes são mais importantes do que as propostas que eles fazem.

4.       Os programas eleitorais dos 2 partidos de governo portugueses respondem a este estado de coisas e por essa razão assemelham-se bastante. A distinção faz-se, no entanto, não pelo resultado programático, antes pela base de que partem para chegarem ao modelo de governação. Por isso, embora em termos de “chavões propagandísticos” os 2 programas façam uso das mesmas fórmulas e dos mesmos “soundbites”, uma leitura de 2º nível de cada um, revela as suas matrizes de origem e o seu “enviesamento” ou “bias”, e nesse sentido, podemos distinguir no imenso “centro”, duas facetas: um centro-esquerda (revelado pelo PS) e um centro-direita (revelado pelo PSD).

5.       ponto de comunhão entre os programas, já foi alvo de artigo meu no “Sentinela do Castelo de Angra”. Com efeito, tanto um como outro fazem uso da semântica “3º viista”. Na altura, a propósito da convenção programática do PSD disse:

O que vimos e ouvimos no passado domingo foi a exibição de uma performance que tem tido enorme sucesso no passado recente da Europa Ocidental:" A 3ª VIA NO SEU ESPLENDOR". Não a 3ª via indecisa, mal amanhada e com complexos de "Old Left" proposta por António Guterres. Antes, a terceira via pura, dura e verdadeira “à la Giddens, à la Blair, à la Clinton e à la Schröeder”.

Lá estava o discurso sobre a competitividade e a produtividade numa era de globalização. Também lá estava a glorificação do trabalho e do mérito. Lá estava a batalha pela igualdade de oportunidades e a luta pelos mais desfavorecidos. Lá se falou do papel do Estado na economia e na sociedade .Falou-se também da alteração da administração pública, da burocracia, como forma de agilizar e flexibilizar a resolução dos problemas dos cidadãos. Apelou-se à sociedade civil e à família, e às parcerias público-privado para devolver a nação aos seus membros. Falou-se de valores partilhados e de tradições da comunidade em relação aos quais o Estado não deve intervir, deve ser neutro, antes deve apoiar quem está próximo dos problemas. Falou-se de políticas sociais temperadas por choques económicos, que mais do que tudo servirão para revitalizar a confiança dos Portugueses”.

Disse, mantenho e acrescento: se em vez de PSD lá colocássemos PS, os comentários manter-se-iam totalmente actuais.

 

6.       As propostas que a “3ª via” apresenta, tentam conjugar elementos de diferentes origens ideológicas: por um lado o neo-liberalismo; por outro a social-democracia do pós-guerra. Para o pensamento neo-liberal existe logo à partida uma posição de fundo relativamente ao âmbito limitado da razão. A racionalidade humana é limitada e está fragmentada, só sendo possível ao ser humano deter pequenas parcelas de conhecimento. A capacidade dos seres humanos é ao nível do conhecimento prático. Atendendo a isto, existe uma desconfiança de base relativamente à capacidade racional de um “grand” planeamento e acção por parte do orgão executivo de governo. É impossível, nesta perspectiva, contemplar no planeamento da acção, todas as variáveis e suas expressões. Donde deve o governo limitar-se a garantir uma estrutura estável do ponto legislativo para que as relações entre cidadãos, através dos contratos, seja efectuada em confiança mútua. Esta base legislativa, assim ordenada e garantida, permitirá que seja capitalizado, da melhor forma possível – mais produtiva e eficiente –, o conhecimento fragmentado e disperso de que dispõem os indivíduos considerados isoladamente. Os governos não têm conhecimentos suficientes para intervir adequadamente. A simples tentativa de o fazerem, envolve a criação de pesadas burocracias afim de gerir as enormes quantidades de informação disponíveis originadas pelos diferentes intervenientes, interessados em acordar entre si contratos de benefício mútuo. A introdução de burocracias envolve a criação de interrupções nos processos espontâneos de relacionamento entre as pessoas, introduzindo processos de distorção e desaceleração dos processos originais. Mais, as burocracias são constituídas, igualmente, por pessoas, que, naturalmente, têm também interesses próprios a serem defendidos no processo. Os neo-liberais rejeitam qualquer preocupação com a chamada justiça social, a grande bandeira e preocupação dos socialistas e social-democratas. Para os neo-liberais a sociedade é uma construção artificial. Aquilo que existe, de facto, são indivíduos que se relacionam livremente entre si. Para os social-democatas, refira-se, o mercado produz resultados, a mais das vezes, inaceitáveis do ponto de vista da igualdade, daí a necessidade de introduzir correcções que transformem essas situações finais em situações equitativas e justas, através de processos de redistribuição. Para os neo-liberais a situação não pode ser analisada desta perspectiva já que o conceito de justiça é um conceito reparador não aplicável aos mercados, visto que numa situação de mercado qualquer dos intervenientes não procura fazer o mal. Mais, em relação aos mercados é desajustado falar de moralidade, visto que o valor central é a eficiência. A justiça social tem a ver com a ideia da distribuição de recursos de uma sociedade de modo a que cada interveniente tenha a sua justa parte. No entanto, tal raciocínio está eivado de inúmeros erros metodológicos, nomeadamente, no que respeita à natureza humana, e, em particular, à liberdade (os neo-liberais assumem um conceito de liberdade negativa, enquanto os social-democratas, não renegando as suas origens revolucionárias, assumem a liberdade na sua acepção positiva – liberdade para). Para o neo-liberal há, por isso, um vazio moral no conceito de justiça social. Tal erro, assumido por qualquer governo, implica consequências políticas gravosas, já que implica, na sua concretização, uma violação profunda da liberdade individual (Nozick 1974) executada numa espiral crescente de trabalho burocrático que conduz sucessivamente a cada vez maiores intervenções e violações (Nagel). A posição neo-liberal quanto à justiça, é que ela só pode ser o resultado de acções intencionais. É por isso um valor reparador, que como vimos, na perspectiva neo-liberal, não é aplicável. O neo-liberal tem uma visão, também, particular da questão da pobreza. Aceita a sua erradicação. Enquanto um social-democrata tenta resolver a questão respondendo à pergunta ‘qual a diferença entre a minha situação e aquela de outros na mesma sociedade?’, o neo-liberal procura responder à questão ‘será que estou melhor agora do que estava?’. A análise social-democrata da questão é relativa, enquanto os neo-liberais, por sua vez, procuram análises absolutas. A posição neo-liberal quanto ao Estado de Bem-Estar é que o Estado deve providenciar uma “safety net” e que não deve afectar os mercados no seu funcionamento causa de fenómenos que extravasam o campo dos mercados, devendo,por isso procurar-se outras esferas como formas de resolução dos problemas da pobreza (Caridade). Um ponto central na doutrina neo-liberal é a questão da igualdade de oportunidades. Esta deve ser assegurada contra eventuais violações intencionais, através da lei. Não caberá, no entanto, a qualquer entidade, garantir recursos positivos, via uma coerção de outros seres humanos, para que alguns, considerados abstractamente em piores condições, acedam a condições previlegiadas. Assume-se, assim, uma posição nomocrática, mais do que uma telocrática. Cada indivíduo saberá melhor do que qualquer entidade abstractamente considerada quais os fins que lhe são próprios.

7.       A Social Democacia defende a relação estreita entre a liberdade e a moralidade. A liberdade, é a liberdade para um fim: o florescimento humano. Este florescimento só pode acontecer numa sociedade livre, na qual todos os membros tenham iguais oportunidades de florescer. Tal só acontecerá mediante uma justa distribuição dos recursos disponíveis. A Social-Democracia assume que cada um é livre de escolher os seus fins. Questiona, no entanto, seriamente, a possibilidade de um indivíduo poder escolher livremente os seus fins caso não tenha as condições mínimas para o fazer. Isto é, o defensor do “Welfare State” posiciona-se contra os neo-liberais, já que acredita que a liberdade não está ligada somente à nossa capacidade para satisfazer determinados desejos individuais, mas, também, com a posse de certos bens que são essenciais (condições necessárias) para a acção. A liberdade não está ligada a desejos particulares, antes a necessidades que têm de ser satisfeitas para que possamos, posteriormente, satisfazer os nossos desejos. É intenção, por isso, da Social-Democracia proceder à justiça social, ou seja, à distribuição de bens primários (Rawls) que são condições necessárias para atingir quaisquer outros bens (e consequentemente os fins). A crítica dos neo-liberais a esta posição diz respeito à dificuldade em ser encontardo um acordo sobre a hierarquia e conteúdo das referidas condições necessárias. A posição social-democrata relativamente à justiça social tenta rebater o neo-liberalismo afirmando que os mercados podem, objectivamente, produzir na vida de algumas pessoas consequências negativas. Nestas circunstâncias encontramos, claramente, situações de injustiça que deverão ser reparadas. Nesta perspectiva, os social-democratas assumem que, para além dos direitos negativos que os neo-liberais também defendem, existem direitos positivos. Ambos necessitam de recursos para serem garantidos, e para ser assegurada uma situação de igualdade. A questão da igualdade é uma das que afasta mais profundamente neo-liberais e social-democratas. A moderna visão social-democrata não faz a divisão radical entre igualdade de oportunidades e igualdade de resultados. Adopta antes, o conceito de igualdade democrática (Rawls) que ultrapassa as formulações dos anteriors conceitos. Neste conceito considera-se que a igualdade de resultados é ineficiente já que são necessárias compensações desiguais para mobilizar o talento numa sociedade livre (sociedade esta que não tem uma perspectiva dirigista do trabalho). É, também, uma ameaça à liberdade, já que para a garantir, o Estado teria que tomar um controle substancial da vida económica de um país; porém tal controle seria incompatível com uma economia mista e com o pluralismo político. Daí que a moderna Social-Democracia aceite um certo grau de desigualdade considerada como justificada. No que toca à igualdade de oportunidades, acredita-se que uma igualdade de oportunidades surgida num cenário de desigualdade pré-existente, origina uma maior percentagem de compensações para aqueles que dispõem de uma situação prévia mais confortável. Uma sociedade de cariz meritocrático é também inaceitável, já que colocaria em risco a viabilidade da própria sociedade. Numa sociedade desta natureza, as compensações só surgem para aquelas capacidades humanas que têm utilidade imediata e transaccionável. Para assegurarmos a viabilidade de uma comunidade é, no entanto,  necessário valorizar positivamente uma série de capacidades e qualidades humanas que vão além daquelas que são valorizadas pela economia e pelo mercado. Face a todas estas visões o que acrescenta então a ideia de “igualdade democrática”? Pois bem, considera-se aceitável a existência de desigualdade económica no interesse da eficiência e crescimento económico desde que: estas desigualdades sejam no interesse dos que estão pior; que estas posições diferentemente compensadas estejam abertas a uma justa igualdade de oportunidades. A estratégia para se conseguir este tipo de igualdade passa por um alinhamento superior, em vez de um inferior (Crosland).

8.       Os neo-liberais defendem seriamente os mercados e atacam criteriosamente o governo e a burocracia. Afastam, ainda, liminarmente, a ideia de justiça social que os governos social-democratas pretendem assegurar. Por sua vez, os social-democratas têm enorme confiança nos governos e suas capacidades, e tem particularmente presentes os limites morais dos mercados e o impacto dos mercados na malha estrutural de uma sociedade. Um dos temas centrais da Terceira Via é, muito naturalmente, o papel e os limites quer dos mercados como dos governos. A Terceira Via aceita algumas das preocupações da agenda neo-liberal no que respeita aos mercados. Rejeita o planeamento governamental, receia a intervenção estatal e acredita num contexto fiscal e monetário estáveis. Os teóricos da Terceira Via acreditam numa relação entre o governo e o mercado, em assuntos como sejam as políticas sociais, justiça social, o “Welfare State” e a coesão social, já que o mercado emerge de uma certa sociedade com características específicas e nela funciona. A crítica efectuada aos neo-liberais, é que o liberalismo económico nada diz sobre o suporte moral que os mercados necessitam para funcionarem efectivamente. A Terceira Via  defende que quanto mais da vida social é abandonada ao mercado mais difícil se torna sustentar e manter as relações sociais e morais necessárias para os mercados funcionarem. Os mercados não existem num vácuo social nem são forças impessoais; são construções sociais, e pressupõem uma série de atitudes e relacionamentos relativamente ao cumprimento dos contratos, promessas, confiança, respeito por uma ordem nomocrática de governo do mercado. Os mercados necessitam de virtudes cívicas para serem mantidos eficientes. No campo neo-liberal a única virtude que é aparentemente necessária é a de mútua não interferência. A Terceira Via assume a necessidade de garantir uma série de políticas que promovam as virtudes cívicas dos cidadãos e que assumam que o mercado não é o único instrumento de inclusão e coesão social. Onde os neo-liberais não aceitavam qualquer responsabilidade colectiva pelos resultados do mercado, a Terceira Via sente a necessidade de intervir. A “safety net” liberal e o efeito “tricle down” não são suficientes para garantir o combate à exclusão social. Têm que ser dados passos mais sérios para garantir a integração social e ultrapassar a alienação produzida pelos mercados. Com a posição que assumem, falta aos neo-liberais os recursos políticos e morais (excepto os escolhidos individualmente e de carácter caritativo) para  desenvolverem programas adequados que garantam maior integração social. Na perspectiva da Terceira Via o governo tem a responsabilidade da solidariedade social e da integração. Para a Terceira Via o neo-liberalismo tem muitos defeitos. Tem razão ao enfatizar a indispensabilidade do mercado, mas falha ao nível moral, já que não tem os recursos morais suficientes para pensar coerentemente sobre o modo como os mercados se relacionam com a sociedade e sobre a necessidade de preservar traços da comunidade. A ênfase na comunidade e na obrigação social é também usada pela Terceira via para se posicionarem face à Social-Democracia. Isto aplica-se particularmente às ideias social-democratas sobre direitos sociais e de bem-estar. Os social-democratas vêem os direitos sociais como uma forma de integração e coesão social decorrentes do sentimento de pertença a uma certa comunidade política e dos direitos civis e políticos a ela inerentes, sendo que estes caractrizam os termos da pertença e inclusão num Estado Moderno. Para a Terceira Via isto é um erro. O acesso aos benefícios estatais numa base incondicional, em vez de direitos sociais criando um sentimento comum forte de cidadania, acabou por criar falta de disciplina, dependência e falta de envolvimento com os aspectos sociais e educacionais do mercado de trabalho. Tal como a liberdade, os direitos têm de estar ligados a responsabilidades e obrigações. Direitos sem deveres, provocam alienação e não inclusão. A Terceira Via assume, por isso, o legado dos Comunitaristas (Sandel 1986), e, nesse aspecto, reaproxima-se da Social-Democracia: uma preocupação pela justiça social: a marginalização, a pobreza e a exclusão são injustiças que o governo deve rectificar. Já que essas acções envolvem despesa pública, elas estão ligadas a uma moralidade política: o mutualismo (podemos atingir mais facilmente em conjunto aquilo que conseguimos atingir individualmente; a minha vida não teria a mesma expressão caso eu tivesse de atender isoladamente a todas as minhas necessidades; poderemos atingir mais facilmente aquilo que pretendemos se os virmos como membros de uma sociedade considerada como um esquema de cooperação mútua (Rawls)). A preocupação da Terceira Via não é propôr uma nova teoria económica. Pelo contrário aceita a visão económica neo-liberal. A preocupação central é sim, com o contexto em que a economia decorre e com a forma como o funcionamento do mercado prejudica e destrói as comunidades que suportam a economia, e com a necessidade de algo fazer para garantir que isso não acontece.

9.       Como se pode ver pelos programas eleitorais o programa do PS é mais assumidamente social-democrata do pós-guerra tingido por traços de 3ª via. O programa do PSD assume mais o lado neo-liberal. No entanto, vive a “3ª via” de uma forma mais intensa. Em que sentido, perguntarão? Assumindo o legado republicanista-comunitarista. Vejamos o seguinte excerto do programa eleitoral do PSD

“ O programa que apresentamos tem uma matriz ideológica que o distingue fundamentalmente de outros. Essa matriz percorre as nossas propostas ao longo das diferentes áreas. Por isso,  antes da exposição mais concreta de objectivos, de orientações e de medidas, impõe-se a identificação e  clarificação do nosso ponto de partida. A importância estratégica da sociedade civil para o processo político constitui a ideia nuclear do programa do PSD. Foi com a afirmação de uma sociedade civil forte e emancipada, como desígnio de liberdade, que o PSD marcou a fundação do nosso projecto constitucional e lhe assinalou a ligação entre liberdade económica e liberdade política. Sem liberdade não haveria criação de riqueza e sem criação de riqueza não haveria justiça. Com este ideário, o PSD definia a sua proposta política, em sentido contrário aos projectos de sociedade que verdadeiramente o não eram, que constrangiam a sociedade sob o peso do Estado. Realizado o projecto constitucional, Portugal enfrenta o desafio da Europa e da Modernidade. E neste desafio está a importância estratégica da sociedade civil. Da sociedade civil requer-se que seja  independente do Estado, mas aberta à cooperação com o Estado, que realize uma prática de auto-determinação

não limitada às estruturas de mercado, mas orientada à comunicação política. A sociedade civil é chamada a contribuir para os desígnios mais vastos da nossa comunidade concreta, a actuar competências do Estado, a  potenciar a eficácia  dos serviços e a qualidade dos bens públicos. O programa eleitoral de Governo do PSD é este apelo a uma cidadania activa e responsável, um chamamento de todos para uma acção no interesse geral, um comprometimento entre Estado e Sociedade no destino colectivo. Esta orientação estratégica da sociedade civil redimensiona a função política e o processo político. A função política não é apenas uma função de  mediação entre os indivíduos e o Estado. Ela promove uma cidadania positiva que se articula com o Estado na fundação das formas de vida da comunidade. A contraposição Estado-Sociedade dá lugar à colaboração Estado-Sociedade.  O processo político é, assim, um processo inclusivo de formação da vontade política.

Este entendimento da função política e do papel dos privados na realização do interesse público exige uma nova arquitectura do Estado e uma estratégia de valorização da cidadania”

e mais à frente prossegue

A modificação dos modelos de decisão pública exige uma prática política de incentivo ao mérito, uma prática de motivação para a responsabilidade individual e a excelência. Em todos os lugares da Sociedade e do Estado. A escola é o lugar de aprendizagem da cidadania. A educação, sobretudo ao

nível pré-escolar, primário e secundário está no centro do nosso programa. O sistema de ensino deve incluir regras de avaliação rigorosa dos alunos e professores e submeter-se a um escrutínio regular e público sobre a qualidade. Nos programas curriculares prevalecerá uma pedagogia de direitos e deveres de cidadania, uma cultura de exigência e responsabilidade. A qualificação dos portugueses é essencial para este novo modelo político de articulação entre Estado e Sociedade. Também a Administração Pública deve orientar-se a padrões de exigência e responsabilidade. Novas formas contratuais para os funcionários, formação contínua, avaliação da qualidade e do desempenho e remuneração competitiva melhoram a qualidade dos serviços públicos. E também o alargamento da responsabilidade individual por actos da função pública e a promoção do mérito induzem uma cultura de excelência. Como o sector privado, o sector público deverá orientar-se para a produtividade,

a motivação e a competitividade.  E se à cidadania se exige cooperação e responsabilidade, aos serviços exige-se orientação para a cidadania: a Justiça, aberta e adequada à dinâmica da sociedade económica; a Educação, a promover a liberdade de escolha, a ganhar modelos de profissionalização e a preparar para a sociedade de informação; a Saúde, a flexibilizar os meios de acesso às prestações. Neste novo modelo político, a chave para uma justiça social global é a activação da liberdade. Pelo Estado, mais leve, mais regulador e menos interventor, mais fiscalizador e menos burocrático, mais dinamizador e catalisador da sociedade civil. Pelos cidadãos, que ao concorrerem para o serviço público, lhe trazem melhor qualidade e transparência.”

 

10.   Onde o PS só vê o Estado, controlando e gerindo os destinos dos Portugueses, o PSD vê o Estado como regulador. Mas o Estado lá está. Com parceria ou sem parceria ele está lá e é indispensável, já que o PSD assume que é necessário lutar pela igualdade de oportunidades e pela justiça social. Não o faz como o PS que quer garantir o acesso a tudo e a mais alguma coisa (ver capítulo III do programa do PS), mas quer regular e, mais ainda, assume que é necessário cultivar uma cidadania activa e motivar a sociedade civil, perfilhando por isso a desconfiança que Giddens, Rawls e Crosland têm relativamente aos mercados e à incapacidade que eles têm para sustentar o ambiente moral e social que lhes permite funcionar. O PSD acredita nesta parte da doutrina e assume que o Estado (whatever that means) tem um papel no desenvolvimento desta cidadania “dita positiva”.

11.   De uma perspectiva liberal nenhum dos programas satisfaz. Porém o PSD tem uma concepção de liberdade mais honesta e menos Rawlsiana ou Socialista, no sentido em que reforça várias vezes a importância da liberdade de escolha dos indivíduos e não impõe um padrão de liberdade ou um conceito de liberdade ideal como o faz o PS.

 

Causa Liberal

 

 

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