“Sweatshops” e Globalização*

 

Por André Azevedo Alves

 

 

A propósito da recente discussão mantida entre o Linhas de Esquerda e vários blogs liberais (Jaquinzinhos, Valete Fratres e Liberdade de Expressão) vale a pena ler o artigo de Radley Balko intitulado Sweatshops and Globalization.

Os liberais defendem que a opção de trabalhar numa "sweatshop", não obstante a dureza das condições de trabalho por comparação com as economias onde o capitalismo mais se desenvolveu, é, para a esmagadora maioria dos trabalhadores dos países menos desenvolvidos, a melhor opção disponível e permite uma melhoria do seu nível de vida.

Como refere Balko:

Globalization’s proponents argue that sweatshops, for all their unseemliness, often present developing laborers the best-paid jobs with the best working environment they’ve ever had; often their other options are begging, prostitution, or primitive agriculture.

Removing the best of a series of bad options, they say, does nothing to better the plight of the world’s poor.



Alguns anti-liberais defendem boicotes e proibições legais que impeçam as multinacionais de operar nesses países ou que lhes imponham exigências operacionais que teriam o mesmo efeito prático que a proibição directa. O problema é que retirar a essas populações a opção menos má que têm ao seu dispôr nada contribui para o seu bem-estar.

Mais uma vez citando Balko:

So far, evidence has shown that boycotts and public pressure do get results, but perhaps not the kinds of results that are in the best interests of sweatshop workers.

Free traders argue that instead of providing better working conditions or higher wages, which had until then offset the costs of relocating overseas, western companies respond to public pressure by simply closing down their third world plants, or by ceasing to do business with contractors who operate sweatshops.

The result: thousands of people already in a bad situation then find themselves in a worse one.



Não basta repetir incessantemente que "outro mundo é possível" ou que querem "outra globalização", uma vez que nenhum desses apelativos slogans pode negar a realidade de que a prosperidade depende da acumulação de capital e da criação de condições favoráveis à poupança e ao investimento nas economias mais pobres. A realidade é que os baixos custos do trabalho são a principal vantagem comparativa desses países e uma das poucas formas de captar investimento produtivo que possuem.

Mais uma vez citando o artigo referido:

(...) cheap labor is the one commodity developing nations can offer that first world countries can’t. Force corporations to pay artificially high wages in those countries, they say, and there’s no incentive for a company to endure the costs of shipping, construction, and risk that come with installing plants overseas. If corporations don’t invest, those third world laborers again get forced back into the fields, the alleys, the brothels, and the black market. Better to endure the discomfort of poor working conditions in the short run, so that these countries can begin to build the economies that will enable them to demand better working conditions in the long run.



Há no entanto um ponto em que liberais e opositores do comércio livre podem estar de acordo. Só podemos estar certos de que trabalhar nas fábricas de multinacionais representa uma melhoria nas condições de vida das populações dos países menos desenvolvidos se essa escolha for livre. Ou seja, se a opção de trabalhar nas "sweatshops" resultar do uso da força e não de uma escolha livre (ainda que entre alternativas que são, do nosso ponto de vista, pouco favoráveis), então, de facto, tal situação não representa uma melhoria, mas antes uma continuação da subjugação das populações por Estados colectivistas e totalitários. É claro que nos casos em que tal aconteça não estaremos perante "comércio livre" (que é incompatível com a escravatura) pelo que as críticas devem ser dirigidas, em primeiro lugar, à opressão levada a cabo pelos governos em causa.

 

 

 

Junho de 2003

 

André Azevedo Alves

 

(consulte outros artigos do mesmo autor aqui)

 

* originalmente publicado no blog da Causa Liberal

 

Causa Liberal