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Sobre a Direita* Por Carlos do Carmo Carapinha Público: Já escreveu que em Portugal se vive um clima em que existe como que
uma espécie de superioridade moral da esquerda, remetendo a direita para o
papel de alguém que só é chamado para administrar as contas... Rui Ramos: Esse é um quadro de desequilíbrio político que tem raízes no
comprometimento das direitas com o Estado Novo. Isso leva até a que a direita
nem se assuma como direita, quando muito coloca-se à direita da esquerda. E
também leva a que os partidos de direita não dêem aos seus projectos uma
dimensão política e tenham tendência em afirmá-los pela sua dimensão
económica. Ora defender o "crescimento" ou o "equilíbrio das
contas públicas" é reduzir ao esqueleto económico o que é um projecto
político e é um sinal da nossa imaturidade democrática. O nosso sistema
político tem imenso medo do confronto. Somos uma sociedade traumatizada pelo
confronto, pelo que existe imenso medo que a afirmação de projectos políticos
fortes, ideologicamente demarcados, possa resultar numa espécie de
guerra-civil. Criou-se o mito de que estamos divididos acerca dos meios mas
estamos unidos acerca dos fins. Isso é falso: estamos é divididos acerca dos
fins e precisamos de nos entender acerca dos meios. E os meios são os da
democracia. Durante anos, quando me colocavam a sacramental pergunta “és de direita
ou de esquerda?”, respondia invariavelmente “sei apenas que não sou de
esquerda”. As razões para este understatement? 1. O facto de ter nascido numa época e num país onde estava enraizada
uma «cultura de esquerda» de inspiração francófona, cuja marca se fazia notar
um pouco por todo o lado (nos jornais, nas academias, nas artes e
espectáculos, no milieu onde se movimentava a «inteligência» lusa),
contribuiu para uma certa pusilanimidade na hora de assumir partidos e
convicções. Quando alcancei a idade da razão, o clima de que falava Nelson
Rodrigues, em relação ao Brasil dos anos 60, vivia-se em todo o seu
esplendor: só se era intelectual, artista, cineasta, arquitecto, ciclista ou
mata-mosquito com a aquiescência da esquerda. Esta «cultura de esquerda» -
que evoluiu exponencialmente por via da frenética actividade dos anti-corpos
que combateram a ditadura salazarista (paternalista, autoritária e, a
espaços, estranhamente socialista) – contribuiu impudicamente para
transfigurar o substantivo «Direita» em adjectivo e anátema: a «direita» como
a ideologia dos mais fortes contra os mais fracos; a «direita» defensora dos
«interesses»; a «direita» precursora do egoísmo contra o comunitarismo; a
«direita» apologista do autoritarismo contra a tolerância; a «direita» como
receptáculo do espírito «conservador» contra o progresso e a modernidade; a
«direita» glacial e insensível, incapaz de um gesto de bondade e de
entreajuda. A própria Direita portuguesa também se colocou a jeito: foi a sua
corrente autoritária e centralizadora quem mais adeptos agregou em Portugal.
Dito de outra forma, os espíritos conservador e liberal que histórica e
filosoficamente identificamos nos países anglo-saxónicos, nunca encontraram
terreno fértil por terras de Viriato. No séc. XIX, a própria corrente «liberal»
era já distinta: olhava-se o Estado como agente preferencial do «progresso» e
da «civilização», observava-se a política como um «estorvo», relegada que
estava à competição partidária e parlamentar. Convinha, aliás, que assim
fosse. As chamadas «forças vivas» da nação – os proprietários, os
comerciantes, os agricultores, os industriais – de «vivas» tinham pouco e nem
com papas de serrabulho se haviam suscitado quaisquer «forças». O divórcio
entre as instituições políticas e o «país real» (o dos «ignaros») estava
consumado. O próprio «projecto» liberal - por insuficiente ou idiossincrático
que fosse – foi, a partir da segunda metade do século XIX, sujeito a fortes
críticas. Lembremo-nos de Oliveira Martins e da sua crítica à nefasta deriva
das ideias liberais em torno do «individualismo» e da inconsequente
«soberania individual». Lembremo-nos da «vida nova» de João Franco. Com o
tempo, os liberais deixaram de ser uma classe política para passar a ser uma
classe social. Com a República, praticamente desapareceram. O papel concedido
ao Estado - omnipresente e omnipotente – serviu a corrente tendencialmente
«autoritária» da praxis política portuguesa. À direita e à esquerda. Os
radicalismos fizeram o resto. 2. Como lembrou Jaime Nogueira Pinto, foi a esquerda quem inventou as
categorias, distribuiu nomes e contou a história. Eu diria «a sua história».
Ao contrário da Direita, a Esquerda foi alvo de um trabalho de genealogia e
de catalogação (mediática e não só), que lhe conferiu corpo e notoriedade.
Cresci numa época e num país onde o recrudescimento do ideário esquerdista
invadira por completo o espectro político-partidário, com reflexos evidentes
na chamada sociedade civil. Lembro o que escreveu Paulo Portas em 1992, numa
altura em que a ideia de se tornar num político lhe era totalmente avessa:
“Devo a Vasco Gonçalves o facto de ser uma criatura irremediavelmente de
direita. Olhei para ele e fiquei contra-revolucionário.” Quando se é novo, e
à falta de uma educação política, navega-se à vista, com base em convicções
mais ou menos difusas, resultantes mais de «reacções» do que «afirmações». Em
Évora, cresci com a Esquerda a fazer-se ouvir nas tertúlias, nos cafés, na
rua, no teatro, nas capelinhas culturais (faz, aliás, parte da sua génese
essa forma de incitação explicita, esse esforço de arregimentar os outros,
essa propensão para as causas audíveis e «fracturantes»). Ser de direita, em
Évora, significava estar ao lado dos latifundiários preguiçosos e falidos
que, envergando patilha farta e bota cardada autoritária, pareciam contrariar
as forças «progressistas» e «reformistas», para além, é claro, de comerem ao
pequeno almoço os que «trabalhavam a terra». Se o critério fosse esse – o da
notoriedade, o do «barulho», o da capacidade de difusão - justiça lhe teria de
ser feita: foi profícuo o trabalho dos homens de esquerda na difusão das suas
cosmovisões, da sua sensibilidade, dos seus convencionalismos, aliado a uma
presunçosa superioridade moral. Bem vistas as coisas, essa «invenção de
categorias», e a proeminência do que era um verdadeiro código de tiques,
posturas e atitudes, foi essencial na produção de «reacções» e de um
crescente cepticismo face às bebedeiras colectivas, às «vagas de fundo» e à
acidental passeata. Para o bem e para o mal, a Esquerda era claramente
«aquilo». Gente houve, principalmente a mais nova (onde eu humildemente me
incluí), que cedo reconheceu que «aquilo» não lhe servia. Desconhecia,
contudo, as origens, os princípios e a forma contrária “daquilo”. O que não é
de estranhar: autores como Hayek, Oakeshott, Aron, Berlin, von Mises ou
Popper, para só falar nos contemporâneos, não pertenceram, durante anos, ao
cânone instituído. 3. Há quem advogue, hoje, que a boa e velha dicotomia está morta ou
que, no mínimo, já não interessa. Que, afinal, os fins são iguais. Não são.
Nunca foram. Mas isso fica para mais tarde. Fevereiro de 2005 Carlos do Carmo Carapinha *originalmente publicado no blog Contra a Corrente |