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Historicismo,
construtivismo e epistemologia liberal* Por Rui Albuquerque 1. Historicismo e Construtivismo Em Maio de 1822, num pequeno livro chamado
«Plano dos Trabalhos Científicos Necessários para a Reorganização da
Sociedade», Auguste Comte escrevia: Esta forma de abordar os fenómenos
sociais, fazendo deles uma autêntica «física social» cujo grau de previsão de resultados
e de precisão dogmática seria supostamente total, entronca numa visão
positivista da ciência, característica do século XIX, e que deixou resquícios
na centúria seguinte. Verdadeiramente, não se trata nem de uma abordagem, nem
de um método científicos, porque, mais não é do que uma convicção nas
supostamente ilimitadas capacidades do espírito e da razão humanas na
descoberta da verdade, que teve repercussões ideológicas inevitáveis. Como Karl Popper assinalou na «Sociedade Aberta
e os seus Inimigos», esta tradição intelectual é muito antiga: podemos,
talvez, situar as suas origens no platonismo da «República dos Sábios»,
aqueles que, para Platão, seriam os mais habilitados numa sociedade a exercer
o poder, porque melhor o podiam compreender e intuir; desenvolveu-se, mais
tarde, no pensamento utópico ocidental, onde tem firmes tradições com autores
como Campanella ou Thomas More. Com o advento do racionalismo no
século XVII, sob a influência preponderante de René Descartes e de Francis
Bacon, esta corrente ganhou foros pretensamente científicos, e
promoveu a razão a oráculo da política e da vida social. A doutrina da «vericitas
naturae», ou «doutrina da verdade evidente», como Popper a
designou, é um produto genuinamente cartesiano. O autor da Sociedade
Aberta definiu-a como a «visão optimista de que a verdade é sempre
reconhecível quando colocada diante de nós: se ela não se revelar por si só,
precisará apenas de ser desvelada ou descoberta» (Karl R. Popper, Conjecturas
e Refutações, Editora Universidade de Brasília, 1982, p. 35). No Discurso do Método, escreveu Descartes: «Sempre
me mantive firme na resolução que havia tomado de não supor um outro
princípio além do que me tenho vindo a servir para demonstrar a existência de
Deus e da alma, e de não tomar uma coisa por verdadeira, sem que me parecesse
mais nítida e mais segura do que me tinha parecido, até essa altura, as
demonstrações dos geómetras e, contudo, ouso afirmar que não somente
encontrei os meios de me dar satisfação em pouco tempo, no que respeita a
todos os principais problemas de que se ocupa a filosofia, mas também pude
descobrir certas leis que Deus de tal modo estabeleceu na natureza, e das
quais imprimiu noções nas almas que, tendo reflectido convenientemente sobre
elas, não poderíamos duvidar que elas não sejam exactamente observadas em
tudo o que existe ou que se realiza no mundo» (René Descartes, Discurso
do Método, Guimarães Editores, 3ª edição, Lisboa, 1997, p. 43).
Na economia política, também o keynesianismo,
foi uma forma de construtivismo historicista, ao propor o controlo e a
planificação progamática do funcionamento do mercado, bem como o planeamento
económico a partir da determinação comportamental dos agentes económicos,
tendo em vista o pleno emprego, a redistribuição equilibrada dos rendimentos
e o crescimento económico e social. É, por isso, também, uma forma de
construtivismo e de intervencionismo, na medida em que se baseia na convicção
de que certos fenómenos sociais são previsíveis e, por consequência,
humanamente controláveis.
Para Hayek, «nous n’agissons
jamais, nous ne pourrions jamais agir, en pleine considération de tous les
faits d’une situation donné» ( Friedrich A. von Hayek, Droit,
Legislation et Liberté, vol. 1 – Règles et Ordre, 2ª Ed., Presses
Universitaires de France, Paris, 1985, p. 35), pelo que o conhecimento
humano, ao contrário do que pretendem os cartesianos, será naturalmente limitado,
em parte devido à enorme complexidade dos objectos e dos fenómenos sociais
sobre os quais ele incide, e, por outro lado, pela própria insuficiência do
espírito humano, incapaz de abarcar e relacionar coerentemente toda a
informação e demais dados inerentes à fenomenologia social. É, apesar de
tudo, essa consciência dos limites do nosso conhecimento, que possibilita o
progresso científico e social: «ce fut toujours la reconnaissance des
limites du possible, qui a rendu l’ homme capable de faire pleinement usage
de ses capacités», afirma Hayek (idem, p. 9); «o homem pode
conhecer: logo pode ser livre» (Popper, Conjecturas… , p. 33), reforça
Popper. Segundo esta abordagem
epistemológica, o caminho do conhecimento é feito de permanentes avanços e retrocessos,
e encontra-se fundado na aprendizagem pelo erro (método hipotético-dedutivo),
o que leva a que o seu progresso resulte «fundamentalmente, na
modificação do conhecimento precedente» (Popper, idem, p. 56).
Por isso, as teorias e as «leis» científicas deixaram, pelo menos desde
Einstein, de ter um valor absoluto e inquestionável. A evolução científica
resulta sempre da colocação de novas hipóteses em torno de problemas antigos.
E as «leis» científicas não são axiomas descritivos de factos inquestionáveis,
mas a constatação de certas impossibilidades e limites, ou seja, de que
determinados factos não se podem, pelo menos naquele momento, produzir. Nessa
medida, mais do que «leis», as conclusões da ciência são probabilidades
(Acerca do conceito popperiano de propensão científica e a sua demarcação do
de possibilidade, cfr. Karl R. Popper, Um Mundo de Propensões,
Editorial Fragmentos, 1991): indicam hipóteses de trabalho com elevado grau
de coerência explicativa dos fenómenos observados, mediante os dados disponíveis
no momento em que são enunciadas, que devem permanentemente ser postas à
prova por outros factos e teorias: «o critério que define o status
científico de uma teoria é a sua capacidade de ser refutada ou testada»,
afirma Popper (idem, p. 66). E é nesta asserção que se encerra o
essencial do seu pensamento sobre o conhecimento científico. De acordo com
esta perspectiva, «o objectivo da ciência é encontrar explicações
satisfatórias do que quer que se nos apresente e nos impressione como estando
a precisar de explicação. Por explicação (ou por explicação causal)
entenda-se um conjunto de proposições das quais uma descreve o estado de
coisas a explicar, enquanto as outras, as proposições explicativas,
constituem a “explicação” stricto senso (o explicans do explicandum)»
(Karl R. Popper, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Publicações
Dom Quixote, Lisboa, 1987, p. 152). Neste novo paradigma científico, Popper lança um desafio e
sugere uma conclusão: «Acredito que valeria a pena tentar aprender algo
sobre o mundo, mesmo que, ao fazê-lo, descobríssemos apenas que não sabemos
muita coisa. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença
entre nós no que respeita aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais
no infinito da nossa ignorância» (Conjecturas…, p. 56). O construtuvismo está, portanto,
nos antípodas da epistemologia liberal. Por isso e ao contrário desta
última, aquela doutrina pretende obter resultados no campo das Ciências
Sociais e Humanas, que considera conclusivos, certos e precisos, e a partir
dos quais analisa social e comportamentalmente os indivíduos. Segundo o
liberalismo de Hayek e Popper, o pensamento construtivista é a-científico,
porque se coloca à margem da premissa mais importante da ciência: a sua
confrontação e verificação permanente com outras hipóteses que a possam
refutar e invalidar. Os dogmas políticos do construtivismo assentam, segundo
esta perspectiva, em falsidades científicas. Não podem, por isso, obter bons
resultados quando aplicados à prática.
* Originalmente publicado no blog Portugal Contemporâneo Janeiro de 2006 Rui Albuquerque |