É difícil ser liberal em Portugal (II)

por Carlos de Abreu Amorim *

(Publicado originalmente no “Semanário” de 21 de Junho de 2002)

 

Pode um português ser liberal? Ou seja, alguém que participe da típica forma lusitana de estar e de entender o mundo, que assuma com autenticidade as expressões culturais portuguesas, a história e as suas interpretações tradicionais, o fado e a sua lamúria intrínseca, a nossa literatura, poesia, moral e religião, isto é, será que tudo aquilo que é suposto alicerçar a dita alma portuguesa pode ser acomodado com o pensamento liberal?

 

A primeira dificuldade em encontrar uma resposta reside nas tendências ideológicas actualmente dominantes entre nós. Particularmente nos círculos pensantes da sociedade portuguesa existe uma espécie de monarquia dualista entre uma esquerda continuamente a fazer um “esforço de Sísifo” de tentar reviver as, pretensamente épicas, crises académicas da década de 60 e a barafunda dos idos de Maio de 1968, numa estranha prática concertada com uma pseudo-direita. Esta, na generalidade, há muito que prescindiu dos seus naturais pressupostos político-ideológicos mas persistiu num timbre acentuadamente religioso e moral, manteve-se conservadora dos pés à cabeça, imobilista e – quantas vezes – a resvalar para o reaccionário.

 

Raramente encontrei excepções a este paradigma dúplice na chamada “inteligência” nacional.

 

Ora, a relação com a pergunta inicial reside não tanto nas semelhanças de raiz entre esses dois padrões, mas mais naquilo que ambos entendem como impossibilidade face à sua lógica existencial. De facto, num raciocínio pela negativa, é muito mais aquilo que os une do que aquilo que os separa. Desde logo, ambos vivem do Estado, pelo Estado e para o Estado. Isto é, consideram unanimemente que os poderes públicos são a fonte, o meio, o fim, o agente, o árbitro, o destinatário e, sobretudo, o beneficiário de tudo o que se passa na sociedade. Ambos, sem hesitação, privilegiam o Estado em detrimento das pessoas. Aceitam, com aparente naturalidade, que sejam públicos um conjunto de serviços, de áreas de intervenção, de iniciativas, nem que, para tal, se vejam forçados a recorrer a justificações anacrónicas e incoerentes. Ambos consideram que em nome de um ilusório escopo colectivo se podem e devem sacrificar todos os valores individuais até ao ponto da asfixia, se necessário for. Que é legítimo exigir ao privado aquilo que nem sequer se sonhou pedir ao público. Por amor ao Estado, ambos admitem o prejuízo, o esbanjamento, o laxismo, o mau funcionamento das instituições, a passividade e a incompetência assumida. Por devoção à coisa pública, ambos compreendem piedosamente o triturar constante dos direitos das pessoas e o consequente aumento do domínio do Estado, directo ou indirecto, sobre tudo e todos.

 

Uns fazem-no porque a sua visão do mundo assenta exactamente nesse pressuposto – do lado daqueles que gostam de se afirmar de esquerda, existe a convicção que só assim se pode implementar a justiça social. Como possuem uma desconfiança de princípio acerca das capacidades naturais das pessoas, favorecem um afunilado controlo estatal da sociedade, hoje em dia, mediante uma regulamentação exaustiva nos mais variados domínios.

 

Quanto aos outros, os que pensam ser de direita, porque acima de tudo temem a ameaça do caos, acreditam na ordem imposta de fora para dentro da sociedade, de forma autoritária e unilateral. As duas famílias políticas, aparentemente desavindas, estão de acordo no entendimento que a Liberdade se reduz àquilo que o Estado nos deixa fazer; e que a Responsabilidade se remete ao que o Estado nos pede para fazer.

 

Genuinamente, todos crêem que só assim as coisas podem funcionar, ainda que a realidade portuguesa os desminta quotidianamente.

Mas, também aqui, a emoção supera a razão, o sentimento afasta a observação racional. Esta é, aliás, a principal característica da alma portuguesa. Só assim se explica este culto ao Estado, tão enraizado de alto a baixo na sociedade portuguesa, em clara contradição com os factos comummente aceites – no fundo, é uma questão de fé. E aí, no campo do irracional, do inexplicável, do dever-ser que nunca é, os portugueses sempre estiveram bastante à vontade.

 

Membro do “Círculo Liberal”

 

Causa Liberal

 

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