É
difícil ser Liberal em Portugal (1)
Carlos
de Abreu Amorim *
(Artigo
publicado originalmente na edição do “Semanário” de 31 de Março de
2002)
Interrogo-me,
muitas vezes, acerca das razões que dificultam a existência efectiva de um
pensamento liberal em Portugal. Até conheço muita gente que se diz liberal. Mas,
salvo algumas honrosas excepções, transmitem-me a sensação que se trata apenas
de uma afirmação de princípio, abstracta, indeterminada e propositadamente
ambígua. Ocasionalmente, seguida de um mais do que irritante aviso: “mas,
atenção, também sou a favor do social”, dando voz à visão “politicamente
correcta” da pretensamente lendária e feroz oposição entre as ideias liberais
(selvagens, frias e egoístas) e as preocupações de índole social (bondosas,
caridosas e altruístas, isto é, “humanas”).
Pior
ainda, são os que se afirmam liberais mas constantemente confundem liberalismo
com uma espécie de “snobismo” sobranceiro, e não apenas no plano intelectual.
Falo de pessoas com responsabilidades, entre nós, na inclusão das ideias
liberais numa espécie de beco ideológico, vagamente esotérico, como se fosse um
conhecimento apenas alcançável por um conjunto restrito de iluminados
previamente iniciados em misteriosas práticas de raízes
anglo-saxónicas.
Mas
a grande questão é saber se existe uma oposição de princípio entre as
tradicionais formas de estar e ser português e o núcleo duro da ideologia
liberal. Se partirmos do pressuposto que o liberalismo assenta numa visão
integral do individuo, numa particular concepção da interligação deste com o
mundo e numa clara delimitação do papel do Estado face às pessoas e às
instituições, poderemos chegar a conclusões desconfortáveis. Numa primeira
análise, obviamente superficial, existe um percurso existencial colectivo em
Portugal que se confronta com os valores da Liberdade e da Responsabilidade e
favorece o dirigismo, a desculpabilização, o conforto da subjugação, enfim, a
remissão de todos os nossos pecados para uma entidade que hoje é o Estado. Daí,
decorre o parâmetro comportamental mais relevante nos portugueses,
independentemente do seu grau de cultura política, que é o medo da mudança, o
pânico da alteração dos seus paradigmas existenciais, ainda que nos seus
pormenores mais mínimos. Para além daquilo que diz ser, todo o bom português se
sente um conservador no mais íntimo do seu ser.
Melhor
do que ninguém, os políticos notaram essas características. Raríssimos são os
que se assumem liberais ou reconhecem o peso dos valores liberais em algumas das
suas iniciativas – mesmo quando estas são de um liberalismo evidente. Veja-se o
presente Governo. No caso RTP, nos contratos da função pública, nos institutos
públicos, ainda que as suas propostas sejam marcadamente “liberais”, ai de quem
afirmar essa impiedosa expressão para definir essas iniciativas! Com temor de má
palavra, refugiam-se em argumentos exclusivamente pragmatistas, fugindo a uma
mais elaborada e segura argumentação política e ideológica. A consequência é
que, sem o suporte da ideia, aos olhos do observador comum, essas acções podem
parecer desgarradas, precipitadas e, até, caprichosas.
Tenho
a esperança de que tudo isto seja, principalmente, uma questão de geração. Noto,
por todo o país, a formação espontânea de grupos de acção e discussão liberais,
protagonizados por gente nova nos modos, nas ideias e na forma de serem
portugueses. Destaco, como exemplo, para além daquele que ajudei a fundar, o
movimento “Causa Liberal” (www.causaliberal.net) que faz adivinhar um futuro
mais confiante para a divulgação das ideias liberais em
Portugal.
Membro
do “Círculo Liberal”