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O Agente Homem e a Liberdade Por José Pio Martins O homem é o único animal que tem propósito consciente. Por isso, cada
um inventa o seu projeto de vida e de felicidade pessoal, único e individual,
que varia de homem para homem e para o mesmo homem em momentos diferentes. Nem o amor por uma pessoa nos autoriza a impor-lhe a nossa vontade e a
nossa maneira de ser e de pensar, nem mesmo sob o argumento de que o fazemos
para a sua felicidade. Claro que não me refiro à responsabilidade de educar e
orientar, coisa bem diferente. Todas as opressões, as pessoais e as
nacionais, se apóiam na desculpa de que é para a felicidade do oprimido. Foi
assim que as ditaduras mataram mais de 200 milhões de pessoas só no século
XX. Conquanto haja algumas regras morais válidas para todos, ninguém pode nos
obrigar a ser feliz à sua maneira, para usar uma expressão de Immanuel Kant.
A única obediência deve ser às leis, que devem ser poucas e boas. As empresas estão se dando conta de que para sobreviver é preciso
inovar. No atual estágio da economia mundial, as palavras-chave são: idéias,
pensamento, inovação e criatividade. O homem mais rico do mundo, Bill Gates,
não chegou a esta posição como proprietário de terras, imóveis, fábricas, não
é capitão de indústria, não produz petróleo nem automóveis e não fabrica bens
materiais. Sua matéria-prima são as idéias e a criatividade. Ele administra
seu império com base em alguns princípios: a) liberdade de idéias; b)
reconhecimento e aceitação das diferenças; c) direito de errar; d) fomento ao
pensamento não-convencional. Certamente ele tem um método para filtrar as
idéias nas quais investir e nas quais não investir. A capacidade de inventar, inovar, criar, errar e renovar só é possível
em regime de liberdade. Liberdade é ausência de coerção, entendida esta como
uma imposição autoritária sobre o indivíduo, que o leva a agir diferente da
forma que agiria se não houvesse a imposição. A questão é que tanto as
pessoas, como as empresas e os governos revelam significativa dificuldade em
se livrar das práticas autoritárias e coercitivas. Não é fácil ser liberal,
pois isso implica exorcizar o ditadorzinho que insiste em habitar o peito de
cada um de nós. A liberdade não é apenas uma questão de direitos individuais da pessoa
humana. É um imperativo de sobrevivência nos planos individual, empresarial e
nacional. O liberalismo permitiu o fim das perseguições religiosas, das
torturas, da escravidão, das ditaduras de esquerda e de direita, livrou o
indivíduo dos tiranos e apeou o Estado do cavalo da tirania sobre o
pensamento e as ações dos homens. A humanidade levou milhões de anos para se
multiplicar até chegar a um bilhão de pessoas em 1830. A revolução produtiva
possibilitada pela revolução liberal criou condição para que apenas 170 anos
depois o planeta chegasse a seis bilhões de seres. Os homens não são iguais. A diferença é o nosso maior patrimônio. O
pensamento e os dons individuais são o nosso maior recurso. E as empresas
descobriram que precisam investir na diferença e na liberdade, como condição
para sobreviver e competir em um mundo exigente e turbulento. O socialismo começou a ruir quando teve de enfrentar o entrechoque do
Estado teórico das cartilhas marxistas com o Estado concreto, esse com o qual
temos de lidar todos os dias. Não dá para desconectar o Estado dos homens que
o compõem e, como não existe ser humano perfeito, é difícil conciliar governo
com respeito às diferenças e às liberdades. Como ninguém é superior e
iluminado para querer impor o seu projeto de vida sobre a sociedade, entram
em cena a democracia política, o estado de direito e a economia de mercado,
que limitam os poderes do governo e protegem a vida, a liberdade, a
propriedade, a individualidade e a segurança dos cidadãos. Só os ingênuos acreditavam que os homens do PT tinham um dom superior,
uma centelha divina que os transformava em seres especiais, dotados de
virtudes que o criador negou ao restante dos mortais. Por revelar que não há
homens divinos e que nenhuma instituição está livre das imperfeições humanas,
o PT talvez tenha feito mais pela idéia da liberdade do que a pregação dos
liberais, já que estes estão sujeitos à suspeita aplicada a todos que pregam
a doutrina na qual acreditam. A esquerda está pagando por ter se esmerado mais na arte de prometer
felicidade do que atender necessidades. Certamente é muito mais fácil vender
ilusões do que produzir satisfações. Sempre achei que um governo do PT teria
um efeito educativo. Quanto mais reduzimos nossa ignorância, menos
acreditamos nos arautos da catástrofe e nos profetas da salvação. O caminho
da prosperidade é árduo. Requer muito trabalho, educação e competência, e
passa por regar a liberdade, valorizar a diferença, fomentar os talentos
individuais e a genialidade criadora, sem que nenhum aparato de governo diga
o que devemos fazer ou nos tolha o caminho. Só os homens, livres e sem
coerção, caindo e levantando, podem livrar a si mesmos dos buracos que
cavoucam. A liberdade é a única condição compatível com a imperfeição humana e a
maneira de evitar que homens imperfeitos, ao montar o cavalo do governo, se
transformem em instrumento de opressão e atraso. José Pio Martins, economista,
professor e vice-reitor do Centro Universitário Positivo - UnicenP |